Quinta, 26 Setembro 2019 13:53

OFS e o Espelho da Perfeição: reflexão sobre o capítulo VI

Capítulo VI

 

Como obrigou todos os frades a sair de uma casa que diziam ser casa dos frades

Ao passar por Bolonha, soube que recentemente fora ali construída uma casa dos frades. Logo que ouviu dizer que aquela casa pertencia aos frades, voltou atrás, saiu da cidade e ordenou energicamente que todos os frades saíssem rapidamente e de maneira alguma ali morassem. 2 Então, todos saíram, de forma que nem os doentes ficaram lá mas foram postos para fora com os outros; até que o senhor Hugolino, bispo de Óstia e legado na Lombardia, afirmou publicamente que aquela casa era dele. 3 E um frade enfermo, que foi expulso daquela casa, deu testemunho destas coisas e as escreveu (cf. Jo 21,24).

 

Reflexão

 

Observamos aqui, novamente, a atitude de recusa a posse de instalações. Uma pena que o prédio não é descrito para entendermos o que realmente deixou o fundador dos Menores tão transtornado. André Vauchez, em sua obra “Francisco de Assis, História e Memória”, nos relata que com o ingresso cada vez maior de irmãos, a Ordem sentiu também a introdução de novos hábitos e um estilo de vida menos espontâneo. Isso se dava principalmente devido a diferentes razões que trouxeram estes novos contingentes às fileiras da instituição. Os primeiros frades foram seduzidos pela possibilidade de adoção do projeto de vida evangélica e de pobreza absoluta de Francisco.

Os novos irmãos buscavam principalmente, a partir do que resplandecia como resultado da vivência dos primeiros, a salvação. Vemos aqui, ainda seguindo o pensamento do autor francês, que isso era totalmente diferente ao que o Pobre de Assis pensava, pois ele não tinha a menor preocupação em salvar-se, pois tal fato seria um dom gratuito de Deus.

Já tratamos desse tema nas reflexões anteriores. Mas, uma coisa que nos chama a atenção é a firmeza com que Francisco defendia o que acreditava. Apesar de não querer exercer sua posição com autoridade, era ciente de sua obrigação de zelar pelo que o havia proposto o Senhor. Então, em um arroubo, expulsou a todos do imóvel.

Francisco não era piegas. Não era uma pessoa sem posicionamento, que, em nome de manter os irmãos, afrouxava o que era primordial. Ou seja, apesar de misericordioso e, por vezes, entender as fraquezas humanas, sabia usar a energia correta para corrigir o rumo.

Este acontecimento nos ensina muito sobre o zelo que devemos cultivar sobre nossas fraternidades, principalmente a partir do cumprimento de nossas regras e constituições. Nossas constituições tratam dessa preocupação no item 2 do artigo 31:

O cargo de Ministro ou de Conselheiro é um serviço fraterno, um compromisso de se tornar disponível e responsável para cada irmão e para a Fraternidade, a fim de que cada um se realize na própria vocação e cada Fraternidade seja uma verdadeira comunidade eclesial franciscana, ativamente presente na Igreja e na sociedade.

E também no número 4:

Cuidem os responsáveis da preparação e da animação espiritual e técnica das reuniões, tanto das Fraternidades como dos Conselhos. Procurem difundir ânimo e vida na Fraternidade com o próprio testemunho, sugerindo os meios idôneos apara o desenvolvimento da vida de Fraternidade e das atividades apostólicas, à luz das opções fundamentais franciscanas. Cuidem que as decisões tomadas sejam cumpridas e promovam a colaboração dos irmãos.

A responsabilidade pelo cuidado e cumprimento do que é o cerne de nosso carisma franciscano secular está definida em nossos documentos. Não deve haver “não me toques”. Os posicionamentos devem ser claros. Francisco assim o fez. Ao tomar atitudes que poderiam nos soar como estranhas ele marca sua posição. Os responsáveis pelas nossas fraternidades não podem e não devem calar-se diante de novidades que não coadunam com nosso caminhar.

Nossos encontros e atividades devem ser fraternos e sempre tendo como direção nossa Regra e os exemplos dos Fundadores. Como Penitentes devemos entender nossa História para não cometer mais erros e para buscar luzes para continuar a caminhada. E isso não se fará com afrouxamentos no modo de viver.

Não tratamos aqui de legalismos. Tratamos aqui de privilegiar os elementos que são norteadores do que temos que viver. Não ter posse de imóvel era fundamental na visão de Francisco. É lógico que ao lermos seu Testamento vemos que ele tratou este tema de outra maneira, demonstrando que amadureceu seus pensamentos. Mas, o que devemos entender é que um caminho espiritual não se faz só com sentimentos jocosos. Devemos viver a penitência nos alegrando com a vida fraterna e nos resignando diante das privações que nos levarão a sermos melhores irmãos uns dos outros.

Por último, vemos também a importância de termos uma instância, principalmente ligada à Igreja, para nos auxiliar nestes momentos de tomada de decisão ou de correção de rumos. A participação de um “assistente espiritual” como foi Hugolino de Óstia trazia esta institucionalidade, que proporcionava um equilíbrio nas relações e nas decisões.

Nossas fraternidades precisam dessa ligação com a Igreja. Ela nos possibilita um melhor diálogo e, por vezes, soluções que nos possibilitarão resolver impasses e melhorar nossa caminhada. Fazemos parte da Igreja. Como tal, temos que nos comunicar com os outros membros. Francisco entendeu que não tinha mais forças para tocar o projeto. Sendo assim, buscou ajuda. Por vezes nossas fraternidades estão precisando de ajuda e nós não a aceitamos. Não queremos escutar a voz da Igreja nos mostrando que algumas coisas precisam ser mudadas. Francisco aceitava novas possibilidades. E nós?

 

Para meditar:

 

Estamos dispostos a tomar atitudes marcantes, mesmo que em um primeiro momento possam ser incompreendidas, em caso de servirmos à fraternidade como conselheiro ou Ministro, para manutenção do caminhar da fraternidade?

 

Ao recebermos novos irmãos, como faremos para adequar seus pensamentos ao que está previsto em nossa regra, sem que isso traga problemas de relacionamento ou cause rachas na fraternidade?

 

Você consegue entender a importância do(a) assistente espiritual (lembrando que nem sempre será um religioso de congregação masculina)? Sua fraternidade entende esse papel? Como é o relacionamento de vocês com ele(a)?

 

Texto de Jefferson Eduardo dos Santos Machado – Coordenador de Formação da Fraternidade Nossa Senhora Aparecida – Nilópolis (RJ)

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