Terça, 11 Agosto 2020 14:00

Festa de Santa Clara: especial sobre a grande “plantinha” do Senhor

Santa Clara nasceu em Assis, em 1194. Aos 18 de março de 1212, saiu de casa e se consagrou a Deus na igrejinha de Nossa Senhora dos Anjos, a Porciúncula. De 1212 até a sua morte, aos 11 de agosto de 1253, viveu no silêncio e na contemplação em São Damião.

O saudoso frade capuchinho Frei José Carlos Pedroso, em entrevista a este site, explicava o significado do título “Plantinha de São Francisco”, que gerou uma leitura equivocada desta grande mulher. “Trata-se de uma leitura desajeitada. Costumam entender que ela seria como um vaso querido de São Francisco, que ele punha na janela e regava todo dia. Seria uma criança. Mas quem conhece os textos das Fontes sabe que plantinha, em latim plântula, é o que nós chamamos de muda. Quando um mosteiro fundava outro, o fundador era chamado de plantador e o fundado era a muda, ou plantinha, porque no início da vida dependia dos cuidados do outro. Nas suas biografias, São Francisco é chamado de plantador da Ordem dos Menores. A Ordem de Santa Clara também foi plantada por ele. Uma das coisas que surpreende em Santa Clara é que, depois de ser obrigada a seguir a Regra de São Bento, a Regra de Hugolino e a Regra de Inocêncio IV, ela pôde finalmente fazer a dela. É notável a sua maneira de ser livre”, explica Frei José Carlos.

Segundo o Dicionário Franciscano, os elementos fundamentais do novo estilo de vida estão sintetizados na Bula de aprovação da Regra de Santa Clara, que fala da união dos espíritos e da altíssima pobreza, como também da vontade de viverem juntas na clausura. Estamos diante de aspectos exteriores de uma realidade interior centralizada no amor do pobre Crucificado.

“Sem sombra de dúvida, a pedra angular de todo o edifício religioso, de toda a vida espiritual de Clara e de suas irmãs é estarem ligadas com afeto pessoal a Jesus Cristo, amor esse ardente e apaixonado. Por causa de Cristo, perto de Cristo, junto de Cristo se realizam todas as suas experiências e se constrói sua vida em sua totalidade”.

A família espiritual de Santa Clara está presente no mundo inteiro. Em todos os continentes existem mosteiros de clarissas. Atualmente as Clarissas chegam a cerca de vinte mil no mundo, em 986 mosteiros. Permanecem nove denominações de Clarissas, conforme a Regra ou as Constituições que observem: Clarissas (com a Forma de Vida de Santa Clara), as Clarissas Urbanistas, Clarissas Coletinas, Clarissas Capuchinhas, Clarissas Sacramentinas, Clarissas da Adoração Perpétua (com a Regra de Santa Clara ou com a de Urbano IV), Clarissas Capuchinhas Sacramentinas, e Clarissas da Divina Providência.

No Brasil, atualmente, são vinte os Mosteiros de Clarissas, com alguns projetos de novas fundações.

Em 1677, a 9 de maio, chegavam ao Brasil as pioneiras: foram também as primeiras religiosas a se estabelecerem em nossa Terra de Santa Cruz. Vieram de Évora, Portugal, para fundar o Mosteiro do Desterro, em Salvador, na Bahia. Este desenvolveu-se rapidamente e chegou a ter numerosas monjas. Mas, aos 19 de maio de 1855, o decreto do Ministério da Justiça, deploravelmente, fechou todos os noviciados das casas religiosas do Brasil e de Portugal.

A comunidade foi se extinguindo aos poucos e, em 1915 falecia a última Clarissa Urbanista do Brasil, com oitenta e quatro anos de idade. Por doze anos não houve mais Clarissas em todo o país. Mas, em 1928, de Dusseldorf, Alemanha, partiram para o Brasil 8 irmãs clarissas, que fundaram o Mosteiro Nossa Senhora dos Anjos, no Rio de Janeiro.

Neste Especial por ocasião desta festa franciscana no dia 11 de agosto, apresentamos subsídios para conhecer melhor essa grande “plantinha” que o carisma franciscano produziu.

 

Cronologia da Vida de Santa Clara

 

– 1193-1194 – Nascimento de Clara Offreduccio de Favarone, emAssis

– 1198 -A Família de Clara se refugia no Castelo de Cocorano.

– 1203-1205 Exílio em Perugia, juntamente com outras famílias nobres que combatem contra o município de Assis

– 1210 – Clara assiste às pregações de Francisco

– 1212 – Noite de Domingo de Ramos, Consagração de Clara na Porciúncula (Santa Maria dos Anjos). Breve período junto às beneditinas. Fixação definitiva em São Damião.

– 1214 – Irmã Balvina, companheira de Clara, funda uma comunidade de damianitas em Spello.

– 1215 – Clara recebe o título de Abadessa.

– 1216 – Obtém do Papa o privilégio da máxima pobreza.

– 1218-1219 Clara e as suas irmãs recebem a Constituição do Cardeal Hugolino com a Regra de São Bento. Algumas damianitas emigram para Sena, Luca, Florença, onde Inês, irmã de Clara, torna-se Abadessa.

– 1220 – Segundo a Tradição, tem lugar a fundação de Reims, o primeiro mosteiro de França.

– 1224 – Início da doença de Clara.

– 1227 – O Papa confirma a assistência dos frades para as irmãs de São Damião.

– 1228 – Primeira comunidade de diamianitas na Espanha: Pamplona. Na Itália existem, pelo menos, 24 comunidades. O Papa visita Clara em São Damião.

– 1234 – Santa Inês, filha do rei da Boêmia, funda um convento em Praga e lá vive. Primeira carta de Clara a Inês.

– 1238 – Um convento de damianitas na Eslovênia: Trnava.

– 1240 – Sarracenos em São Damião: proteção milagrosa da comunidade.

– 1241 – (22 de junho) Pela oração das irmãs, a cidade de Assis foi libertada do cerco dos exércitos do imperador.

– 1242 – A beata Cunegundes funda um mosteiro em Olomuc, Moravia.

– 1245 – A beata Salomé funda um mosteiro na Polônia, em Zawichost.

– 1247 – Regra de Inocêncio IV: as damianitas são associadas à Ordem Franciscana e deixam a Regra de São Bento.

– 1253 – IV e última carta conhecida de Clara para Inês de Praga.

– 1253 – O Papa visita Clara e aprova a sua Regra.

– No dia 11 de agosto morre Clara.

– 1253 – (novembro) Morte de Santa Inês de Assis (irmã de Clara)

– 1255 – Canonização de Santa Clara. Celano escreve a sua biografia (Vida).

– 1260 – Traslado do corpo de Clara e transferência da comunidade de São Damião para o atual mosteiro de Santa Clara de Assis.

– 1263 – Regra de Urbano IV. A Ordem de São Damião toma o nome de Ordem de Santa Clara

 

A Ordem de Santa Clara

Quando Santa Clara morreu, a Ordem iniciada por ela já havia se espalhado por terras bem distantes.

Só documentados, sabemos de uns cem mosteiros de fundação ou inspiração no ideal de Santa Clara de Assis, na Itália, França, Alemanha, Boêmia, Espanha e Oriente.

Praticamente, os mosteiros não possuíam uma denominação única, pois alguns as chamavam de Irmãs Pobres Reclusas, por viverem na clausura; outros as chamavam de Damianitas, devido ao fato de terem tido origem no Mosteiro de São Damião, onde residiam Clara e suas primeiras discípulas; outras vezes, eram denominadas Irmãs Menores, em paralelo com os Frades Menores.

São Francisco, no seu espírito cavalheiresco, as chamava de Damas Pobres ou Pobres Damas. Santa Clara, na sua Forma de Vida, simplesmente as chama de Irmãs Pobres.

Após a morte de Santa Clara, o Papa Urbano IV quis unificar as denominações e determinou que todos os mosteiros se chamassem da Ordem de Santa Clara (OSC). Passaram a ser chamadas popularmente de Irmãs Clarissas, nome que atualmente ainda perdura e as identifica.

O que fazem as clarissas?

Frequentemente alguns perguntam, ou por simples curiosidade, às vezes num tom de desafio, e muitos por um sincero interesse, amizade e desejo de conhecer melhor suas Irmãs Clarissas: “Irmãs, o que é que vocês fazem?” Talvez haja na pergunta ou na resposta alguma ambiguidade, pois fazer e ser misturam-se muitas vezes.

Respondemos humildemente: “Somos contemplativas”. Nossa missão na Igreja é ser orantes. Grande parte do dia e algumas horas da noite estamos em nosso porto de sentinelas vigilantes, na contemplação silenciosa de nosso grande Deus, na adoração amorosa a Jesus Sacramentado exposto em nossa capela interna, no canto coral do Ofício Divino ou Liturgia das Horas, integralmente rezado, e na Celebração Eucarística diária. Sempre em súplica intercessora junto de Deus.

É isto que esperam de nós as muitas pessoas que vêm até o Mosteiro, pedindo para rezar nas mais variadas intenções possíveis.

E o Mosteiro das Clarissas se torna um coração aberto para todas as lutas, alegrias, vitórias e sofrimentos que atingem a humanidade. Há sempre uma irmã disponível para atender, ouvir e dar a certeza de que todos os problemas, anseios e dores são levados a Deus em forma de prece.

Além dessa vida de oração propriamente dita, continuamos a oração da vida: o trabalho. Este, preferencialmente manual, de modo a deixar a mente e o coração livres para mais facilmente estar em Deus.

Os trabalhos são muito diversificados. Dentro de nossas possibilidades, de acordo com as necessidades da comunidade eclesial que integramos.

Confeccionamos paramentos sacros, túnicas e estolas litúrgicas e demais alfaias para o culto divino. Gostamos deste trabalho, muito de acordo com nossa vocação contemplativa. É lindo pensar que em tantos altares, muitíssimos sacerdotes e outros ministros celebram a Palavra, a Eucaristia, os Sacramentos, usando trabalhos que ocultamente fizemos para a glória de Deus, num ato de amor, de adoração e súplica, para que o Reino de Deus chegue ao coração de todos os homens.

Há também o trabalho junto à natureza, na horta e no jardim, identificando-nos com tantos de nossos irmãos, que colaboram com Deus no sustento próprio e dos outros.

Trabalhamos com serigrafia, imprimindo cartões com mensagens de paz, harmonia e esperança. Confeccionamos cartazes que marcam presença em tantos acontecimentos, igrejas, comunidades…

Há também trabalhos de artesanato: modelagem em gesso e pintura de imagens, confecção e decoração de velas, caligrafia artística para cartões e impressos, flores artificiais…

Existem ainda os trabalhos domésticos, feitos quanto possível, por todas as irmãs, em familiar solidariedade.
No Mosteiro, o problema não é o que fazer, mas como dar conta de tantas coisas a serem feitas.

Santa Clara deixou em sua Forma de Vida a norma de trabalhar, para uma Clarissa: “As irmãs a quem Deus deu a graça de trabalhar trabalhem sem perder o espírito de santa oração e devoção, ao qual devem subordinar-se todas as coisas”.

A clausura

“Um mosteiro é uma realidade desconcertante”, já disse alguém. João Paulo 2º advertia: “É uma necessidade vital para a Igreja”. Um mosteiro é uma realidade questionante.

Por que jovens, cheias de vida, de entusiasmo de ideal, se fecham num mosteiro? Por que o contato com elas nos revela que são pessoas tão felizes, tão normais, transbordando alegria e paz em todo o seu ser?

Não existe resposta humana. Existe o mistério do absoluto: Deus, que é capaz de fascinar uma vida em todo o seu sentido.

A clausura, as grades, clamam por si! Clamam que existe algo maior, que está além do que se vê, que existe o transcendente, o indizível, o infinito… E pensar que este Deus se fez tão próximo, que habita entre nós, que quer a intimidade de sua criatura…

Sim, vale a pena uma vida reclusa, de silêncio e solidão, na busca de responder a tão grande amor de Deus! E todo simbolismo de grades, de separação, querem dizer apenas: Deus existe! Nós podemos encontrá-lo Vale a pena deixar tudo pelo Tudo!

“Clara, permanecendo encerrada no segredo de seu convento, irradiava fora raios resplandecentes; reclusa, iluminava fora; enquanto permanecia escondida, sua vida era conhecida”.

 

As etapas para ser uma Clarissa

 

O primeiro sinal de vocação está no querer: “Eu quero ser Clarissa”. Par isso, exige-se algumas qualidades consideradas indispensáveis: alegria, espírito de sororidade e fraternidade e de serviço, gosto pela oração, saúde física e equilíbrio psíquico.

Qual o primeiro passo a ser dado para ser clarissa?


Entrar em contato com algum Mosteiro, escrevendo, telefonando ou visitando pessoalmente.

 

Quais as etapas para ser clarissa?


Candidata – A jovem vocacionada deve manter contato com o mosteiro até o ingresso. É uma fase importante de discernimento em que terá um acompanhamento vocacional, e poderá fazer um pequeno curso vocacional. A jovem pode escrever, telefonar ou visitar o Mosteiro. Este tempo perdura quanto for necessário, e a jovem não tem nenhum compromisso com o Mosteiro, pois está discernindo a vocação.

Estágio ou experiência – Se quer mesmo viver a vida clariana, ao ingressar no Mosteiro, fará um mês de estágio ou de experiência dentro do claustro. Concluído este tempo, decidirá se deseja avançar. A comunidade também faz a sua avaliação em relação à jovem, depois deste período.

Postulante – O postulantado marca um tempo de preparação para o início da vida religiosa clariana, e tem a duração de um ano, em geral; pode ser prolongado, se for necessário.

Noviça: Concluído o tempo do postulantado, numa cerimônia familiar, a jovem recebe o hábito clariano, marrom, com o véu branco, a corda sem os nós, e a coroa franciscana. Inicia o noviciado, que é um tempo de aprofundamento na espiritualidade e no ideal abraçado, e uma preparação mais intensa para a profissão dos votos na Ordem de Santa Clara. A Irmã noviça já faz parte da família clariana.

Profissão temporária (juniorista) – Terminado o noviciado, que dura dois anos (e pode ser prolongado por algum tempo), a noviça, com plena liberdade, fará os votos temporários de pobreza, castidade e obediência e clausura, por três anos. Este período de juniorato poderá ser prolongado por mais três anos.

Profissão perpétua de votos solenes: Enfim, chega a última etapa. Com este período a irmã é integrada definitivamente na Ordem de Santa Clara, prometendo perpétua fidelidade como resposta ao amor incondicional de Deus. A irmã costuma permanecer até o fim de suas vidas no mosteiro que ingressou. Somente deixa o local no caso de ser transferida para uma nova fundação ou prestar auxílio em outro mosteiro.

Texto do livro “Nas pegadas de Clara de Assis”, das Clarissas do Mosteiro de Nazaré em Lages (SC)

 

A Graça da Fraternidade

O dom mais alto que a experiência contemplativa de Clara ofertou à Igreja e a todo o mundo, é o testemunho de uma fraternidade evangélica comparada intensamente àquela vivida pela primeira comunidade cristã, feita “um só coração e uma só alma” (At 4,32) no apaixonado seguimento do Senhor Jesus.

Francisco e Clara propriamente não pensam em seguidores; agarrados pelo idêntico Amor, formados um nele, deixaram-se suspender pelo vento impetuoso do Espírito, e só de repente se apercebem que se estendeu o contágio de sua utopia.

Entre “as irmãs que o Senhor lhe deu”(Testamento de Santa Clara 25), Clara se põe então como serva, irmã e mãe, consciente de que verdadeiramente  no interior daquela humanidade concreta e variada se encarna para ela o Verbo amante e crucificado. Contemplar não é sentimentalismo ou poesia, não é perder-se em representações vazias de um relacionamento romântico, pessoa a pessoa com o Onipotente, como se fosse possível atingi-lo em comunicação direta.

Não, Deus não se deixa tocar como um objeto, nem pelos sentidos humanos. Ele caminha sobre a terra, mas como um incógnito; o ser humano O pode encontrar somente no ser humano desde que, em Cristo, assim escolheu encontrar-se com Ele.

E é sob aqueles despojos miseráveis e grandes que solicita a fé e o amor de cada um.

Alguém pode crer de amar a Deus embalando-se nas imagens de sua fantasia religiosa ou nos ardores da sensibilidade facilmente emocionável diante do “magnífico” natural como do “sacro” litúrgico, mas não está seguro do engano de que seja somente a projeção de seu desejo de grandeza e beleza e potência e infinidade.

Clara, crescida na escola de Francisco, sabe que quando se consegue ler na criatura humana – talvez desfigurada pelos limites inevitáveis do egoísmo, da superficialidade, da ignorância, do pecado –o rosto do Amor traído, “desprezado, injuriado, e em todo o corpo repetidamente flagelado” (Segunda Carta a Santa Inês de Praga, 20) e posto à morte, então se pode gritar com certeza: “Nós temos conhecido e crido no amor”. (IJo 4,16).

Não há muito para crer se a pessoa a quem se diz “te amo”, com a qual se reparte com alegria o pão da vida e se inebria do vinho da familiaridade, é aquela que parece saciar plenamente o vazio da existência e que gratifica com a evidente, incessante oferta de si.

Mas há tudo para crer quando se diz “te amo”, lá onde não há algo de amável, onde parece perder o próprio dom numa mão furada e de desperdiçar a água da generosidade; é ali que se aprende verdadeiramente o que é o “dispêndio amoroso”, o segredo da pródiga liberalidade do Amor.

Sobre esta fé, Clara não teme de lançar-se com as irmãs no único fogo devorador da paixão de Deus, que dos diversos elementos aos quais se une faz uma só chama incandescente para a festa de todos.

E porque não se pode conservar escondido um incêndio nem conter o respirar do bem no seu efundir-se, Clara pede às irmãs de serem uma para a outra uma manifestação de Deus: “aquele amor que tendes no coração demonstrai-o externamente com os atos”. (Testamento de Santa Clara 59) Mas a vida fraterna é uma graça. Não tanto por aquilo que dá a cada uma, de segurança, de sustento imediato, de ajuda física e moral; é uma graça sobretudo por aquilo que pede de si.

Se é somente no relacionamento que o ser humano conhece a si mesmo, se é pela ação dos outros que se livra da casca limitada em que se esconde a pérola da verdade, como não render graças a quem, estando perto, o provoca àquele amor que, exigindo o tudo e o em toda parte do dom silencioso e gratuito da vida, o faz autenticamente viver e saborear a sua liberdade?

A fraternidade é o termômetro que verifica o grau em que uma criatura é pobre, casta, obediente, porque alguém não sabe, até que é só, se está andando para cima ou descendo pelo caminho. Mas é quando o vizinho o despoja das forças e do tempo, dos bens exteriores e das pretensões interiores de bem, que pode medir a densidade de sua pobreza. É quando a fome de amor do outro o arranca à satisfeita pureza de um coração mantido em gelo e lhe pede o comprometimento até o espasmo, que aprende a conhecer o valor da castidade.

É quando obriga-o a ver com os olhos de um míope aquilo que ele crê de perscrutar com lucidez, que sabe as exigências abismais de sua obediência. E ignora o que seja a beatitude exaltante de alcançar somente os solitários cumes do espírito quem não desce a se aquecer na lareira da fraternidade.

Clara, porém, é demasiado mulher amante e concreta para iludir-se que uma semelhante graça não custe o esforço paciente e renovado de toda uma vida. Por isso, quer as irmãs “solícitas em conservar sempre reciprocamente a unidade da incansável caridade”(Forma de Vida de Santa Clara 10,7)

Então, fraternidade é alegria de condivisão total, onde isto não significa dizer que tudo “é meu”, mas é dizer do próprio, também o mais íntimo, `é teu’. É alegria de fazer-se novos todo dia um para o outro no generoso perdão recebido e doado. É alegria de ser continuamente salvos pelo Amor e de ascender juntos no tempo, mantendo cada uma bem viva a pequena chama de sua fidelidade, rumo ao reino dos céus onde o amor não tem mais sombras nem demoras.

 

Do livro “Como Fonte Selada”, tradução de Ir. Sandra Maria, das Irmãs Clarissas do Mosteiro Nazaré de Lages (SC)

 

Francisco e Clara, dois enamorados, mas de quem?

 

Pe. Raniero Cantalamessa

Fez-se comum falar da amizade entre Clara e Francisco em termos de amor humano. Em seu conhecido ensaio sobre apaixonar-se e amar, Francisco Alberoni escreve que «a relação entre Santa Clara e São Francisco tem todas as características de um enamoramento transferido (ou sublimado) à divindade». «Francisco e Clara», de Fabrizio Costa, a série televisiva transmitida em Rai Uno nos dias 6 e 7 de outubro, melhor talvez que «Irmão Sol e Irmã Lua», de Zeffirelli, soube evitar esta alusão ao romântico, sem tirar nada da beleza também humana de um encontro assim.

Como qualquer homem, ainda que seja santo, Francisco pode ter experimentado a atração pela mulher e o sexo. As fontes referem que para vencer uma tentação deste tipo, uma vez, o santo se jogou em pleno inverno na neve. Mas não se tratava de Clara! Quando entre um homem e uma mulher há união em Deus, se é autêntica, exclui toda atração de tipo erótico, sem que exista sequer luta. É como refugiar-se. É outro tipo de relação. Entre Clara e Francisco havia certamente um fortíssimo vínculo também humano, mas de tipo paterno e filial, não esponsal. Francisco chamava Clara de sua «plantinha», e Clara chamava Francisco de «nosso pai».

O entendimento extraordinariamente profundo entre Francisco e Clara que caracteriza a epopéia franciscana não vem «da carne e do sangue». Não é, por exemplo, igualmente célebre, como aquele entre Heloísa e Abelardo. Se assim tivesse sido, teria deixado talvez uma marca na literatura, mas não na história da santidade. Com uma conhecida expressão de Goethe, poderíamos chamar a de Francisco e Clara uma «afinidade eletiva», com a condição de entender «eletiva» não só no sentido de pessoas que se elegeram reciprocamente, mas no sentido de pessoas que realizaram a mesma eleição.

Antoine de Saint-Exupéry escreveu que «amar não quer dizer olhar um ao outro, mas olhar juntos na mesma direção». Clara e Francisco na verdade não passaram a vida olhando um ao outro, estando bem juntos.

Trocaram pouquíssimas palavras, quase só as referidas nas fontes. Havia uma estupenda discrição entre eles, tanta que o santo, às vezes, era amavelmente reprovado por seus irmãos por ser demasiado duro com Clara.

Só ao final da vida vemos atenuar este rigor nas relações e Francisco buscar cada vez com maior frequência consolo e confirmação junto a sua «Plantinha». É em São Damião onde se refugia próximo à morte, devorado por enfermidades, e está perto dela quando entoa o canto de Irmão Sol e Irmã Lua, com aquele elogio de «Irmã Água», «útil e humilde e preciosa e casta», que parece ter escrito pensando em Clara.

Em lugar de olhar um ao outro, Clara e Francisco olharam na mesma direção. E se sabe qual foi para eles esta «direção». Clara e Francisco eram como olhos que olham sempre na mesma direção. Dois olhares que contemplam o objeto desde ângulos diversos dão profundidade, relevância ao objeto, permitem «envolvê-lo» com o olhar. Assim foi para Clara e Francisco. Contemplaram o mesmo Deus, o mesmo Senhor Jesus, o mesmo Crucificado, a mesma Eucaristia, mas desde «ângulos» diferentes, com dons e sensibilidade próprios: os masculinos e os femininos. Juntos perceberam mais do que teriam podido fazer dois Franciscos e duas Claras.

Se existe uma lacuna na série sobre Francisco e Clara é talvez a insuficiente relevância prestada à oração, e com ela à dimensão sobrenatural de suas vidas. Uma lacuna provavelmente inevitável quando a vida dos santos se leva à tela. A oração é silêncio, quietude, solidão, enquanto que a palavra «cinema» vem do grego kinema, que significa movimento! A exceção é o filme «O grande silêncio» sobre a vida dos cartuchos, mas não resistiria na pequena tela.

No passado se tendia a apresentar a personalidade de Clara demasiado subordinada à de Francisco, precisamente como a «irmã Lua» que vive do reflexo da luz do «irmão Sol». O exemplo neste sentido é o livro publicado no verão passado sobre «a amizade entre Francisco e Clara» (John M. Sweeney, the Friendship of Francis and Clare of Assisi, Paraclete Press 2007).

Tanto mais é de elogiar, na série televisiva, a eleição de apresentar Francisco e Clara como duas vidas paralelas, que se entrecruzam e se desenvolvem em sincronia, com igual espaço dado a um e outro. É a primeira vez que ocorre desta forma. Isso responde à sensibilidade atual orientada a evidenciar a importância da presença feminina na história, mas em nosso caso corresponde à realidade e não é algo forçado.

A cena que mais me impactou ao ver a pré-estréia de «Francisco e Clara» é a inicial, emblemática, uma espécie de chave de leitura de toda a história. Francisco caminha em um prado, Clara o segue introduzindo seus pés, quase brincando, nas pegadas que Francisco deixa, e, diante da pergunta dele: «Estás seguindo minhas pegadas?», responde luminosa: «Não, outras muito mais profundas».

 

Oração a Santa Clara

 

Clara, coração transbordante,

acende a alegria.

Clara, louca de amor,

orienta a nossa ternura.

Clara, de nome e de vida,

guia-nos na noite.

Clara, fervor do Espírito,

dissipa nossos temores.

Clara, candeia sobre a mesa,

une-nos em família.

Clara, dos olhos límpidos,

tira o pó de nossas pálpebras.

Clara, mãe e irmã,

Roga por nós.

Roga por estas mãos

que por vezes se equivocam.

Roga por estes olhos

que por vezes se fecham.

Roga por este coração

que não ama como deveria.

Clara, mãe e irmã

roga pela paz que nos falta,

pela esperança que não temos

pela alegria que se esvai.

Clara, mãe e irmã,

roga ao Senhor para que nos conceda

o dom da fidelidade

e o dom de novos irmãos e novas irmãs.

 

Frei José Rodríguez Carballo, ex- Ministro Geral da OFM

 

Confira o especial completo no link abaixo.

Fonte:

https://franciscanos.org.br/carisma/especiais/a-grande-plantinha-do-carisma-franciscano#gsc.tab=0

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