Quinta, 17 Dezembro 2015 13:59

Prólogo da Regra da OFS: Dos que fazem penitência

 

Prólogo da Regra da Ordem Franciscana Secular

Exortação de São Francisco  aos irmãos e irmãs da penitência

Carta aos Fieis (Primeira recensão)

 

Oração de abertura

Ao Espírito de Amor

Vem, Espírito do Pai e do Filho.

Vem, Espírito de amor.

Vem, Espirito da infância e da paz,

da confiança e da alegria.

Vem, alegria secreta que brilhas

através das lágrimas do mundo.

 

Vem, vida mais forte do que nossas mortes.

Vem, pai dos pobres e advogado dos oprimidos.

Vem, Luz da eterna verdade

e Amor derramado em nossos corações.

 

Não temos condições de te forçar;

bem por isso  depositamos toda confiança.

Nosso coração receia secretamente tua  vinda

porque és muito diferente  de nosso coração insensível.

Temos  a garantia de que, apesar de tudo, tu vens.

 

Vem, pois,  renova e dilata

tua visita dentro de nós.

Em ti colocamos nossa confiança.

É a ti que amamos, porque és o Amor.

Em ti temos a Deus por Pai

porque lá dentro de nós mesmos, clamas:

“Abba, Pai bem amado!”

 

Permanece em nós,

não nos abandones, 

nem durante o  combate da vida

nem quando  ele chegar a seu termo

quando estaremos sós.

 

Vem, Espírito  Santo!

                        Karl  Rahner

 

 

Introdução

             Sempre de novo precisamos voltar ao essencial. Como  franciscanos seculares  temos a convicção mais profunda que, neste mundo em transformação, é urgente mergulhar cada vez mais nos capítulos da Regra  da OFS.  Na medida que os irmãos e irmãs e as fraternidades respirarem o espírito deste caminho inspiracional de vida haveremos de determinar nossa identidade no seio da Igreja e do mundo.  Estaremos dando nossa parte na construção do Reino.  Sentir-nos-emos   contiunuadores da obra  dos “penitentes de Assis”.

 Os discípulos Senhor, em todos os tempos e lugares,  buscam seguir as pegadas do Mestre e, na trama do cotidiano, querem ser santos como  Santo é o Senhor.  Desejam privar da intimidade esponsal  com o Senhor e, por meio do testemunho da vida e anúncio explícito por meio palavra,  tornar o Evangelho luz dos homens,  insistir que o Amor precisa ser amado e , assim colaborarem na construção do Reino. A Regra dos Franciscanos Seculares, aprovada pelo Papa  Paulo VI em 1978,   traça o caminho  dos seguidores de Cristo à maneira de Francisco. 

 Há um texto escrito pelo próprio Francisco que precede e ilumina  os capítulos da Regra. Trata-se da Exortação aos  irmãos e irmãs da penitência ( Carta aos fiéis, primeira recensão). Os cristãos, e no caso os franciscanos seculares, escutam o convite exigente  do Evangelho: “Convertei-vos,  mudai o modo de pensar,  crede no Evangelho. Os que percorrem os caminhos da conversão são felizes. Podemos afirmar que o Prólogo  constitui a alma dos três capítulos da Regra.  A conversão evangélica é o pano de fundo da  Regra.  É luz que incide  nos temas: oração, trabalho, vida em fraternidade, serviços.

         Muitos homens e mulheres foram e são tocados pelo Evangelho que se chama  Cristo vivo e ressuscitado.  A força desse chamamento requer uma transformação de vida.  O Evangelho chama essa mudança de  penitência ou conversão,  mais precisamente conversão evangélica.  Inúmeras vezes Francisco alude ao tema a partir de sua experiência.  O tema e a realidade eram tão fortes nos tempos das origens que Francisco e os seus eram chamados de “irmãos da penitência”.   Ora, a Ordem Franciscana Secular se insere nesse movimento de pessoas desejosas de reviver o Evangelho,  pessoas que formam o cortejo alegre dos penitentes.

             Nesta breve introdução é bom ter em mente  o teor  do n.7 da Regra: “Como  “irmãos e irmãs da penitência”, em virtude de sua vocação, impulsionados pela dinâmica do Evangelho, conformem seu modo de pensar e de agir ao de Cristo, mediante uma radical transformação  interior  que o próprio Evangelho designa  pelo nome de “conversão”, a qual, devido à fragilidade  humana, deve ser realizada todos os dias”.

             “Converter-se é acolher na fé a iniciativa gratuita, imprevisível de Deus  que decidiu em Jesus nos visitar em pessoa para nos  salvar, quer dizer fazer com que entremos numa felicidade sem fim. Converter-se é aceitar ser salvo gratuitamente e   colocar a vida em harmonia com este evento.   Conversão e fé  participam de uma e única iniciativa.  Converter-se, mudar a direção de sua vida, é ter suficiente fé  para renunciar a se considerar o centro absoluto do mundo e respirar autossuficiência, mas orientar a vida, o  futuro, a busca da felicidade em Jesus que nos chama para segui-lo”  (Michel  Hubaut, Chemins d’intériorité avec saint François,  Ed. Franciscaines,  2012, p. 24-25).

            Frei Alberto Beckhäuser  nos ajuda a penetrar no convite de Francisco à conversão:   “Francisco, “o penitente de Assis”  ainda hoje nos tem algo a dizer sobre isso, tanto por sua vida como através de seus escritos. Podemos afirma-lo porque  Francisco resgatou o  verdadeiro sentido da penitência como vida de conversão evangélica.  A penitência ou conversão evangélica  está no centro da mensagem do Evangelho. João Batista  prega a penitência:  Naqueles dias apareceu  João Batista pregando no deserto da Judeia as palavras:  “Convertei-vos porque está próximo o  Reino dos  Céus  (Mt 3,1-2). Um  pouco adiante: Dai, pois, frutos de verdadeira conversão (Mt 3,8).   Marcos diz que João apareceu no deserto e pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados  (cf. Mc 1,4).  Jesus coloca a conversão e a penitência no centro de sua pregação: Depois de João ter sido preso, Jesus veio para a Galileia. Pregava o  Evangelho de Deus dizendo: Completaram-se os tempos, está próximo o Reino de Deus, convertei-vos e crede no Evangelho (Mc 1,14-15).  Diante da resistência de muitos à sua mensagem,  Jesus disse:  Se não vos converterdes, todos vós perecereis”(Lc  13, 3.5).  Nestes textos   converter-se e fazer penitência  significam a mesma coisa, tanto assim que muitos traduzem:  Fazei penitência e crede no Evangelho (Frei Alberto  Beckhäuser,OFM,   A espiritualidade do  franciscano secular. Exemplo e proposta de Francisco de Assis,  Vozes,  2015, p. 31-32).

 

            Vamos estudar o Prólogo em dois momentos, segundo a divisão interna do texto:  dos que fazem penitência e dos que não fazem penitência.

  

I.                    Dos que fazem penitência  (cap. I)

 Todos os que amam o Senhor, “de todo o coração, de toda alma e de toda a mente, com todas as suas forças”  (Mc  12,30)  “e amam o seu próximo como a si mesmos” (Mt 22,29), e odeiam o próprio corpo  com seus vícios e pecados, e que recebem o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, e fazem dignos frutos de penitência: quão felizes são estes e estas que assim agirem e perseverarem até o fim, porque “sobre eles  repousa o Espírito do Senhor”  (Is  11,2) e ele fará neles  sua habitação e a sua “morada”  (Jo 14,23), e eles são filhos do Pai celestial (Mt 5,45);  cujas obras fazem e são esposos, irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo  (Mt 12,50).

            Somos  esposos quando a alma fiel está unida a Nosso Senhor Jesus Cristo pelo Espírito Santo.

            Somos seus irmãos, quando fazemos “a  vontade do Pai que está nos céus”(Mt 12,50).  Somos mães quando trazemos  em nosso coração e  em nosso  corpo(1Cor 6,20)  pelo amor divino e por uma consciência pura e sincera: e o damos a luz pela obras  santas que,  pelo exemplo, devem ser luz para os outros  (Mt  5, 16).    (Prólogo  1-10).

 

 Fazem dignos frutos de penitência...

·         Fazem  dignos frutos de penitência  aqueles que amam o Senhor com todas as forças, toda a mente e toda a alma.  São pessoas capazes de escutar, em sua vida, a voz do Senhor de diferentes maneiras: no fundo do coração, na Palavra proclamada, na voz do irmão, nos sinais dos tempos, na figura de Jesus.  Os que sabem escutar,  respondem com obediência carinhosa e amorosa.    Vivem de Deus e em Deus.  Ele é o alvo de suas vidas. Colocam o Senhor antes de todos os pequenos interesses, na obediência, na oração que parte de seu nó interior. Amar ao Senhor: escutar sua voz,  cultivar delicadeza nessa audição, colocar-se à disposição de seus desígnios.  Começa aí a descentralização da vida de penitência, da alegre vida de conversão.

·         Fazem frutos de penitência  os que levam em consideração a pessoa do outro, próximo ou distante, amigo ou inimigo.  Levar em consideração significa adivinhar seus desejos, dar o melhor de si para que o outro seja.  A pessoa do outro e suas necessidades podem fazer com que arranjos  existenciais sofram mudança. Esse outro é, de modo particular, o mais necessitado, o menos envolvido em atenções, o que não enxerga claridade no fundo do túnel.  Os que fazem penitência  evitam tudo o que leve à tola competição, à supremacia de uns sobre outros.  Condenam as guerras, recusam-se a usar qualquer tipo de armas.

·         O Manual para a Assistência à Ordem Franciscana Secular (CIOFS) elenca algumas determinações que eram seguidas pelos Penitentes na Idade Média:   viver em comunhão eclesial;  fraternidade considerada como fonte de espiritualidade e santidade;  o amor a Deus e ao próximo fará com que  muitas fraternidades, que possuíam bens móveis e imóveis, manifestem seu compromisso na linha da misericórdia, com obras concretas, como hospitais, dispensários, entrepostos de alimentos e roupas para os pobres e peregrinos;  muitas  cidades e associações civis ofereciam   aos penitentes franciscanos, devido à sua honestidade, o governo e gestão das obras  sociais e caritativas;  o penitente não dispunha de armas (eram como que objetores de consciência), se pedia que os penitentes fizessem seu testamento antes da profissão, etc  (cf Manual, p. 37-38).

·         Na mesma linha da transformação,  fazem penitência os que sabem dominar seus impulsos  nem sempre límpidos e transparentes, “odeiam o próprio corpo com seus vícios e pecados”, os que não ouvem todos os gritos do ego na linha do aproveitar, do cobrir-se de glória, dar vasão a todas as tendências  do homem carnal. Sabem controlar-se para que seu interior se torne casa de Deus.  São capazes de adotar expedientes ascéticos com firmeza e moderação.  Neste contexto  Francisco liga corpo a  “vícios e pecados”.  Nesse sentido o corpo, ou este aspecto do corpo, aspecto carnal que luta contra o espirito, precisa ser odiado.

·          Os que fazem frutos de penitência recebem o Corpo e  Sangue do Senhor. Frei  Alberto Beckhäuser, explica assim esta afirmação de maneira bastante clara:  “Não se trata apenas de comungar na Missa ou fora dela. Mas de aderir  totalmente a Cristo, ao seu modo de pensar, querer, amar e agir. É acolher Jesus Cristo  com tudo o que ele é e ensinou. É receber Jesus Cristo em sua mensagem, o Evangelho, é receber Jesus Cristo  no próximo, na natureza criada, nos fatos e acontecimentos da vida.  É seguir o Senhor Jesus  no mistério pascal de sua Paixão e Morte, para, como ele, participar de sua ressurreição. É  percorrer com  Cristo o caminho da cruz. É cumprir o seu mandamento e ser como ele, Corpo dado e sangue derramado. É dar a vida através do amor a Deus

 e ao próximo, como Jesus deu a vida pela salvação do mundo”  (Frei Alberto  Beckhäuser, OFM,  A espiritualidade do franciscano secular,  Vozes,  p.47).

 

Daqueles que colhem frutos de penitência

 ·         Os que entram na trilha da conversão/penitência estão no caminho da felicidade.  “Quão felizes são eles...”.  Sobre eles repousa o Espírito Santo. Nesse espaço que é seu corpo, sua mente sua vida é preparada uma morada para o  Hálito, o Sopro, o Espírito do Senhor.  A mecânica observância dos mandamentos e dos tópicos da Regra  pouco adiantam. O Hóspede que é o Espirito  vive no coração dos que se empenham em produzir frutos de penitência.  Tudo é obra do  Alto.

·         Francisco fala, então de uma experiência trinitária. Os que fazem penitência fazem a experiência da filiação, do desponsório e da fraternidade em Cristo. Estamos longe de alusões intelectuais ao mistério da Trindade.  Tudo é concreto.

o   Filhos do Pai celeste cujas obras fazem.

o   São esposos, quando a alma fiel está unida  ao Senhor Jesus pelo Espírito Santo. Belíssima imagem do desponsório. Os franciscanos haverão de alimentar uma intimidade contemplativa a longo de sua vida.  Tal intimidade amorosa se dá na medida em que a alma está unida a Jesus no Espírito.

o   Somos irmãos do Senhor quando fazemos a vontade do Pai que está nos céus.

o   Somos mães do Senhor,  somos “Maria”,  quando trazemos  Jesus em nosso coração e nosso corpo  pelo amor divino e  por uma consciência pura.

o   Damo-lo à luz  pela obras luminosas que colocamos e que devem ser luz para os outros.

 

Oração Final

             Uma das páginas mais luminosas de Francisco onde ele exprime seu amor  pelo  Senhor  e pelos homens  está  no Prólogo.  Trata-se de um texto todo perpassado de fé e de intimidade, admiração e confiança, ternura e promessa.   É o Cristo, em sua oração sacerdotal,  rezando  pelo seus.  Nos, franciscanos,  temos a certeza de que esse Jesus está agora intercedendo pelos que trilham os caminhos jubilosos da penitência.  Esta explosão trinitária serve como oração:

             Como é honroso  ter no céu um Pai santo e grandioso!

            Como é santo ter um esposo, consolador, belo, admirável!

            Como  é santo e como é amável ter um tal irmão e um tal filho agradável, humilde, pacífico, doce, amorável e sobre todas as coisas desejável:  Nosso Senhor Jesus  Cristo que entregou sua vida por suas ovelhas  (Jo 10, 15) e por nós orou ao Pai dizendo:  “Pai santo, guarda-os em teu nome (Jo 17,11), os que me deste no mundo;  eram teus, mas tu m’os deste  (Jo 17,6).

            E as palavras que me deste, eu as dei a eles e as receberam e creram  em verdade que saí de ti e conheceram que tu me enviaste” (Jo 17,8).  Rogo por eles, não pelo mundo (Jo 17,9). Abençoa-os  e santifica-os (Jo 17,17), e “por eles eu próprio me santifico”  (Jo 17, 19).  “Não rogo somente por eles, mas também por quantos hão de crer em mim, mediante a palavra deles  (Jo 17,20), para que sejam santificados na unidade  (Jo 17,23), como  nós  (Jo 17,11). “Pai, quero que onde eu estou, eles estejam comigo para que vejam a minha glória (Jo 17,24)  no teu Reino (Mt 20, 21). Amém.  (Exortação 11-19).

           

 Questões para círculos:

 

§  O que se deve entender  por penitência evangélica? Em que sentido os franciscanos são irmãos e irmãs da penitência?

§  Quando uma pessoa entra em esquema da conversão?

§  Por que as pessoas que não fazem penitência vão perecer?

§  O que mais chama sua atenção  na primeira parte do Prólogo ( Dos que fazem penitência)?

 

 

 

                                                                                              Frei Almir Guimarães, ofm

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