Sábado, 03 Outubro 2020 13:40

Trânsito de São Francisco

Parte 1

Ao cair da tarde de 3 de outubro de 1226, a febre aumentou e as forças reduziram-se como uma chamazinha que sai e não sai do pavio quase seco de óleo. Então Francisco quis ser colocado sobre a terra e pediu que cantassem. E ele também cantou, com os seus, o salmo 141, que fala do desejo de ir para Deus:

“Em voz alta ao Senhor eu imploro,
em voz alta suplico ao Senhor!
Eu derramo na sua presença
o lamento da minha aflição,
diante dele coloco minha dor!
Quando em mim desfalece a minh’alma,
conheceis, ó Senhor, meus caminhos!
Na estrada por onde eu andava
contra mim ocultaram ciladas.
Se me volto à direita e procuro,
não encontro quem cuide de mim
e nem tenho aonde fugir;
não importa a ninguém a minha vida!
A vós grito, Senhor, a vós clamo
e vos digo: ‘Sois vós meu abrigo,
minha herança na terra dos vivos’,
Escutai meu clamor, minha prece,
porque fui por demais humilhado!”

Quando, levados pela melodia, os frades começaram a cantar:

“Arrancai-me, Senhor, da prisão,
e em louvor bendirei vosso nome!
Muitos justos virão rodear-me
pelo bem que fizestes por mim”.

Francisco havia deixado seu corpo sobre a terra.

O Canto enfraqueceu e se apagou na boca dos frades, que recitaram o Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo como conclusão do salmo entre lágrimas e emocionados.

Fez-se silêncio na cabana. Parecia que a natureza ao redor tivesse emudecido.

 

Parte 2

Carta Encíclica de Frei Elias sobre o Trânsito de São Francisco, pág. 1453, das Fontes Franciscanas:

“Era luz verdadeira a presença de nosso irmão e Pai Francisco, não só para nós que compartilhávamos da mesma profissão de vida, mas também para os que estavam longe. Era, pois, luz, enviada pela luz que iluminava os que estavam nas trevas e na sombra da morte, para dirigir seus passos no caminho da paz. Isto ele fez, como verdadeira luz do meio-dia, que nascendo do alto, iluminava o seu coração e acendia a sua vontade com o fogo de seu amor… Seu nome é celebrado até os confins mais longínquos e todo o universo admira as maravilhas de sua obra.

(…) Alegremo-nos porque antes de ser arrebatado de nós, qual outro Jacó, abençoou todos os seus filhos e perdoou a todos por qualquer erro que tivesse cometido  ou pensado contra ele…

(…) Enquanto era vivo, tinha um aspecto descuidado, não havia beleza em seu rosto; nenhum membro havia restado nele que não estivesse dolorido. Devido à contração dos nervos, seus membros estavam rígidos como os de um cadáver. Mas depois de sua morte, seu semblante ficou belíssimo, brilhando com admirável candura, alegrando a visão. Portanto, irmãos, bendizei o Deus do céu e dai-lhe glória diante de todo o ser vivente, porque Ele usou de misericórdia para conosco. Guardai a lembrança de nosso Pai e Irmão Francisco para louvor e glória daquele que o engrandeceu entre os homens e o glorificou perante os anjos. Rezai por ele, conforme ele mesmo  pediu antes de morrer e invocai-o para que Deus nos faça participantes com ele de sua santa Graça. Amém.

Fonte: “Santos Franciscanos para cada dia”, Ed. Porziuncola.

 

Parte 3

Naquele pôr-do-sol em torno da igreja da Porciúncula, nú sobre o solo de Assis, rodeado pelos irmãos… De seus lábios brotam os versos iniciais do Salmo 141: “Eu vos peço, Senhor, vinde rapidamente a mim… ouvi a minha voz que vos chama… em vós busco refúgio; não me deixeis indefeso.”

Nesse momento de uma autenticidade incontestável é que se manifesta o pensamento de humanidade, simplicidade, despojamento e compaixão do Poverello de Assis. Sua humildade é de uma sinceridade que se impõe, é absoluta, sem que se pense em julgá-la exagerada. É o cumprimento de sua missão, com tranquilidade e serena segurança. Não é ele o arauto do grande Rei? A sua mística humanizante e da compaixão pelo próximo se mostra ao mesmo tempo totalmente divina e completamente pessoal.

A consciência individual proclama sua autoridade soberana: “Ninguém me mostrou o que devia fazer, mas o Altíssimo mesmo revelou-me que devia viver conforme o santo Evangelho. ”

Francisco entra no mistério da morte cantando, sem medo, porque sabe que vai para os braços amorosos do Pai. Encontramos neste gesto sublime de entrega e abandono um caminho para humanizar nossa relação com o outro e levar-nos a ter compaixão do irmão, para adentrarmos como Francisco no caminho da eternidade.

Francisco quis ser deitado nú na terra, porque queria morrer nos braços de sua Dama Pobreza. De imediato abarcou os vinte anos que se tinham passado após sua união: “Cumpri meu dever, que Cristo agora vos ensine o vosso!”, disse ele aos irmãos.

Que a celebração da Vida e Morte de Francisco nos impulsione a vivermos em nossas relações com o próximo a mística humanizante e da compaixão. Só assim poderemos dizer, como Francisco, que cumprimos verdadeiramente, nosso dever de amar e doar-se sem medidas!

 

Parte 4

Os irmãos e amigos contemplam Francisco no confronto definitivo com a irmã morte; nú diante do Cristo nú; de seus lábios moribundos ainda se ouvem os versículos do Salmo 141: “Enquanto desfalece em mim o meu espírito, exponho a seus olhos a minha tribulação; Elevei os meus braços a ti, ó Senhor; Tu és a minha esperança, a minha porção na terra dos vivos. Tira do cárcere a minha alma, a fim de que eu dê o louvor ao teu nome; os justos esperam o momento em que me serás propício”.

Dessa forma, enquanto Francisco morria e a tarde começava a desmaiar, sua prece final foi um gesto sublime, o ato pelo qual ele exprimia o que era e de quem era filho, prestes a renascer na eternidade. No âmago de seu ser, Francisco finalmente dependia absoluta e unicamente de Deus. Sua pobreza era absoluta: nada existia entre ele e Deus.

A radiosa luz azulada da tarde brilhou por sobre o vale e cobriu as montanhas de Assis. Ao descrever seus últimos momentos, os amigos de Francisco nunca esqueceram um último detalhe: “Muitos pássaros, chamados cotovias, esvoaçaram por sobre o teto da cabana onde ele jazia, fazendo grandes círculos e cantando.”

Frei Joaquim Camilo Alves, OFM

 

Fontes:

http://franciscanosmapi.org.br/celebracao-do-transito-de-sao-francisco/

https://franciscanos.org.br/carisma/calendario/transito-de-sao-francisco-de-assis#gsc.tab=0

 

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