Sábado, 27 Abril 2019 01:32

OFS e o Espelho da Perfeição: reflexão sobre o capítulo IV

CAPÍTULO IV

 

Do noviço que desejava ter um saltério com a permissão de S. Francisco

1 Certo dia, um noviço que sabia ler no saltério, ainda que não muito bem, obteve do Ministro Geral autorização para ter um. 2 Mas, porque ouvira dizer que S. Francisco não queria que seus frades tivessem a paixão da ciência e dos livros, não se contentou com esta permissão e quis obter também a de S. Francisco. 4 Passando o Santo pelo lugar onde se encontrava o noviço, este disse-lhe: «Pai, é para mim grande consolação ter um saltério, mas, se bem que já tenha licença do Ministro Geral, não quero usá-lo sem o teu consentimento». S. Francisco respondeu-lhe: «O imperador Carlos Magno, Rolando e Olivério e todos os paladinos e varões que se mostraram valentes na guerra, combatendo contra os infiéis até à morte, sem se pouparem a suores e fadigas, obtiveram sobre eles memoráveis vitórias. 5 Por fim, morreram em combate, como mártires santos, pela fé de Cristo. Hoje, porém, há muitos que só querem receber honras e louvores, pondo-se a contar o que fizeram os heróis. 6 Assim, também entre os nossos, muitos querem receber honras e louvores, recitando e propalando as obras que os santos fizeram». 7 Queria dizer que não se devia cuidar dos livros e do saber, mas das obras virtuosas, porque «a ciência incha e a caridade edifica». 8 Passados alguns dias, estando S. Francisco sentado ao lume, o noviço voltou a falar-lhe no saltério. 9 S. Francisco disse-lhe: «Depois do saltério, apetece-te um breviário. E, cumpridos os teus desejos, repimpas-te numa poltrona, tomas ares de grande prelado e ordenas ao teu irmão: ―Traz-me cá o breviário!‖» 10 Dizendo estas coisas com grande fervor de espírito, S. Francisco pegou em cinza e pô-la na cabeça, traçando um círculo à volta, como se estivesse a lavá-la, e dizendo ao mesmo tempo: «Eu sou o breviário! Eu sou o breviário!» Repetiu muitas vezes estas palavras, passando a mão à volta da cabeça, com grande vergonha e confusão daquele frade. 11 Depois, S. Francisco acrescentou: «Irmão, também eu sofri a tentação de ter livros, mas, para saber a este respeito a vontade do Senhor, peguei no livro onde estavam os seus Evangelhos e pedi-lhe para que me mostrasse a sua vontade na primeira página que eu abrisse. 12 Terminada a oração, a primeira passagem que se deparou aos meus olhos foi a palavra do Santo Evangelho: ―A vós foi-vos dado conhecer os mistérios do Reino de Deus, mas aos outros fala-se-lhes em parábolas”. 13 E acrescentou: «São tantos os homens que desejam ascender à ciência, que devemos ter por feliz aquele que se fizer ignorante por amor do Senhor Deus». 14 Passados muitos meses, estando S. Francisco em Santa Maria da Porciúncula, perto da cela que ficava atrás da casa, à beira do caminho, o dito frade voltou a falar-lhe do saltério. 15 S. Francisco disse-lhe: «Vai e faz como te disse o Ministro». Ouvindo tal resposta, o frade voltou costas e pôs-se a caminho do seu eremitério. 16 S. Francisco, tendo permanecido no caminho, começou a refletir sobre o que dissera àquele frade. Imediatamente o chamou, gritando: «Espera aí, irmão, espera aí!» 17 Tendo-o alcançado, disse-lhe: «Volta comigo atrás e mostra-me o lugar onde te disse para obedeceres às ordens do teu Ministro no que respeita ao saltério». 18 Tendo chegado a esse lugar, S. Francisco ajoelhou-se aos pés daquele frade e disse-lhe: «Eu é que tive a culpa, irmão, eu é que tive a culpa, 19 porque todo aquele que quiser ser frade menor não deve possuir mais do que uma túnica, tal como a Regra lho permite, cordão e panos menores; calçado, só em tempo de manifesta necessidade». 20 Desde então, sempre que os frades vinham pedir-lhe conselho sobre este assunto, respondia-lhes do mesmo modo. 21 Por isso, repetia muitas vezes: «Toda a ciência do homem está nas suas obras e as palavras dum religioso têm de ser comprovadas pelas suas ações, pois pelo fruto se conhece a árvore».

 

REFLEXÃO

No quarto capítulo o texto volta ao assunto dos livros e da discussão sobre o poder que representa possuir bens. Agora trata-se de um noviço que pede a autorização ao seu ministro para possuir um saltério. Lembremos que o primeiro frade que pediu a posse de livros, no capítulo II, tinha uma ideia de que os livros fossem comunitários. Neste já acontece uma “evolução”. Os frades, inclusive os noviços, já iniciam sua vida franciscana solicitando um saltério. Lembremos que o saltério na Idade Média era um livro muito bem-acabado. Possuía muitas iluminuras, sendo por isso considerado um livro luxuoso e muito caro. Ter esse tipo de publicação era sim ter um bem e somente os grandes mosteiros e igrejas os possuíam, assim como as pessoas de alto poder financeiro.

Mesmo assim, os frades passaram a ter o direito a possuí-los. Lógico que, como podemos ver no texto, Francisco era contra. O que nos chama a atenção é que o EP (Espelho da Perfeição) realmente quer frisar a influência dos intelectuais nas mudanças feitas no ideário original. Isso é importante. A Ordem deixava de ser levada pela intuição. Passou a elaborar suas ações de maneira mais sistemática e isso fazia com que a sua essência fosse transformada. Esse fenômeno trouxe muitos embates entre dois grupos que radicalizaram em suas atitudes. Os primeiros, aos quais parece que o autor do EP esteja vinculado, eram os que acreditavam lutar pela manutenção do ideário dos primeiros frades e os outros eram aqueles que apostavam em uma mudança como forma de viver melhor o Evangelho.

Diante do exemplo fornecido pelo texto, vale a pena abrirmos parênteses para falar um pouco de formação e ingresso de novos irmãos nas fraternidades da OFS. Segundo a Regra, em seu artigo 22, a fraternidade local é “o lugar e o espaço que gera e forma cada vocação”. Porém, também cada um de nós somos responsáveis pela manutenção de nossa formação permanente.

No período de formação, deve-se primar pelos elementos mais fundamentais do carisma. O desapego e consciência de como devemos usar os bens materiais é um dos pontos importantes. Será que, mesmo com autorização da Regra, o ministro deveria autorizar de forma indiscriminada o uso do saltério?

Vemos então que os irmãos que entravam na Ordem dos Frades Menores já vinham com valores diferentes aos pregados pelo fundador. Além disso, a atitude daqueles que deveriam formá-los era achar normal as transformações na forma de vida.

No caso da orientação que Francisco dá ao noviço, ele afirmou que também queria ter livros. Isso é uma colocação importante. Ele deixa claro que também tem que abandonar desejos para seguir o caminho. Ele coloca o exemplo como fundamental. Abandonar desejos e vontades em nome do Reino é um passo importante. Mostra o fascínio que o saber causa nas pessoas. Porém, afirmou mais uma vez que o que importava era a sabedoria advinda do Evangelho.

Como já afirmamos em outro momento, o saber é gerador de sentimentos que por vezes vão contra alguns princípios do carisma francisclariano. Lutar, trabalhar, lecionar, rezar, ou realizar qualquer outra atividade em nome de Deus, mas que, na verdade, trata-se de uma busca de honra e reconhecimento, transforma a atitude em prática vã. É sobre isso que o Poverello trata. A fraqueza humana nos leva a instrumentalizar os bens e utilizá-los somente para o nosso bem-estar.

O saber não é o mais importante. Ele faz parte da vida humana. Nos ajuda a discernir e a modificar realidades que antes eram opressoras e injustas. Mas, ele não pode ser por si só instrumento de dominação. Ele deve ser partilhado e discernido em fraternidade. Entre os irmãos não deve haver disputas de quem sabe mais.

Por uma segunda vez Francisco se encontra com o Noviço. Este o questiona novamente sobre o saltério. O Santo de Assis, em um momento de perda de paciência, manda-o seguir o que o Ministro havia falado. Volta atrás na decisão e pede ao frade para ir com ele até o local onde havia falado para ele obedecer. Parece que quer apagar a cena anterior. Aí o admoesta como de costume, ou seja, o ideal seria ter uma túnica, cordão e panos menores. O autor então cita a seguinte fala de Francisco: «Toda a ciência do homem está nas suas obras e as palavras dum religioso têm de ser comprovadas pelas suas ações, pois pelo fruto se conhece a árvore».

E aí vem outro ensinamento que é muito precioso para todos nós franciscanos. O que importa em nossa vida são as atitudes que tomamos. As palavras fazem parte da formação. O Estudo e compreensão do que devemos ser é importante. Mas, para que o Evangelho seja realmente pregado e entendido o importante é a ação.

 

QUESTIONAMENTOS

Nós estamos atentos à formação de nossos iniciantes ou estamos preocupados apenas em aumentar o número de irmãos de nossas fraternidades?

As atitudes individuais e coletivas de nossas fraternidades refletem o que o nosso carisma pede?

Será que em nossa fraternidade replicamos o que é feito na sociedade, ou seja, medimos a importância de cada irmão ou irmã pelos seus diplomas e condição financeira? Será que quando nos encontramos todos somos iguais?

 

Texto de Jefferson Eduardo dos Santos Machado – Coordenador de Formação da Fraternidade Nossa Senhora Aparecida – Nilópolis (RJ)

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