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Franciscanos Seculares e a Política: a vocação franciscana para a construção da Paz e do Bem comum

“Chamados, juntamente com os homens de boa vontade, a construírem um mundo mais fraterno e evangélico para a realização do Reino de Deus e conscientes de que “quem segue a Cristo Homem perfeito, também se torna mais homem”, assumam as próprias responsabilidades com competência e em espírito cristão de serviço.” Artigo 14 da Regra da OFS

O artigo 14 da nossa Regra nos diz que nossa vocação é humana e humanizante. É com o outro que nós fazemos, como o Senhor, um modelo de Homem perfeito. A vida de Jesus é o nosso ponto central de vivência vocacional.
A presença na vida pública é o primeiro indicativo de como deve ser nossa participação no mundo. Por natureza secular a Ordem Franciscana Secular está pulverizada com nossa presença em vários setores da sociedade. Nossa vocação é a mesma dos frades e das freiras, porém nossa forma de vivê-la é diferente. Essa identidade secular nos traz responsabilidades dentro dos vários âmbitos sociais e a política passa por todos os aspectos da vida humana.
A promoção da justiça como manifestação da fraternidade, que é citada no artigo 14, tem muitos desdobramentos na efetiva vivência de nossa vocação. A promoção da justiça é por natureza política! Se a política é a arte do bem comum, a justiça é imprescindível para que o bem aconteça. Como sermos portadores da Paz e do Bem se ao nosso redor a injustiça impera. Nossa vocação não dá frutos em uma realidade como essa. A pergunta é como viver a vocação franciscana promovendo a justiça? Sem dúvida nenhuma podemos responder que é vivendo como irmãos. É a fraternidade! Irmãos não permitem que haja fome, que alguém não tenha moradia, que a saúde fique comprometida por falta de atendimento, que algum irmão não tenha educação de qualidade e outras coisas mais, necessárias para a vida humana. Nossa vocação não é para anjos é para pessoas, então ela acontece onde as pessoas estão, inclusive nos seus sofrimentos. Aqui vem a segunda parte da característica citada no artigo 14. Para além de fraterno, o mundo tem que ser evangélico para nós franciscanos e franciscanas seculares. Isso é muito exigente e leve. Viver o Evangelho é garantir que todos tenham vida e vida em abundância. Como ter vida em abundância numa sociedade da cultura da morte. As pessoas estão morrendo de trabalhar. A escala 6×1 rouba o tempo de encontro consigo mesmo, com o outro e com Deus. Não temos tempo de viver, de sermos irmãos e irmãs. Onde foi parar o Pai Nosso que rezamos fervorosamente em nossas celebrações eucarísticas? Se não somos irmãos não tem Pai nosso, não somos franciscanos de verdade. Mas como saber se podemos medir um franciscano de verdade? Não podemos! O que podemos é verificar se estamos dando respostas ao dom de sermos franciscanos que o Senhor nos confiou. Isso acontece na conversão, numa vida de penitência. Não podemos deixar de conceituar a vida de penitência que é viver o Evangelho de Jesus de Nazaré.. Muito bem, com esse conceito alinhado podemos afirmar sem medo de errar que a vida de penitência tem tudo a ver com a política. Se a vida de penitência é viver o Evangelho e o Evangelho quer perfeitamente nosso bem comum e a política é a arte do bem comum, ser franciscano é algo político. Avancemos para águas mais profundas …
Participação responsável é a chave que o artigo nos dá para nossa ação no mundo. Nossa vocação não está no mundo das ideias como podemos concluir até aqui. Francisco e Clara de Assis são seres humanos com alto grau de consciência da sua existência no mundo. Quanto mais avançamos na consciência de nossa identidade franciscana, mais o nosso grau de responsabilidade cresce. “A quem muito foi dado, muito será cobrado”. Não é pouca a nossa vocação. Se somos irmãos e vivemos o Evangelho nossa responsabilidade é a realização do Reino de Deus começando aqui e agora como sinal da vida perfeita que há de vir. As criaturas criadas por Deus é sinal desse Reino. O cuidado da Casa Comum, criação de Deus, é materialização da garantia do bem comum, é um ato político. Quando entramos para somar com nossa presença franciscana em um movimento social que luta para preservar nascentes, florestas, biomas e minerais estamos sendo franciscanos na política. Fazendo parte de conselhos de controle social de políticas públicas, participando de audiências, compondo fóruns temáticos e outros espaços da democracia participativa, estamos sendo franciscanos. Na Igreja também dá pra viver nossa vocação franciscana na política. As pastorais sociais são um espaço privilegiado de vivência da vocação franciscana, elas buscam o bem comum a partir da realidade eclesial. Podemos entender então que responsabilidade é uma resposta ao mistério da nossa vocação no meio do mundo como sinal vivo de Jesus de Nazaré.
Chegamos no centro do anúncio do Evangelho de Jesus: O Reino de Deus. Quando Jesus diz que o seu Reino não é deste mundo ele faz uma oposição direta ao modelo de vida social e de poder contido na realidade que Ele viveu e que é perpetuado na nossa realidade contemporânea. Jesus propõe um modelo de serviço como poder, invertendo a lógica do sistema da época e do sistema atual. A partir dessa concepção de Reino proposto por Jesus a nossa adesão à política tem que ser na lógica do serviço e não modelo do poder vigente. Para nós franciscanos esse serviço na política ainda tem um outro detalhe, os pobres. É numa opção de pobreza Evangélica que Francisco e Clara assumem sua responsabilidade Evangélica de viver sua vocação. Nossos fundadores entenderam bem o que quer dizer “Venha a nós o Vosso Reino”. O Reino acontece na nossa existência. Aqui também tem uma janela que deixa o sol entrar e iluminar nossa identidade franciscana. O fato de existirmos como seres humanos nos proporciona a possibilidade de sermos como Jesus, Homem perfeito. Isso que nos torna mais franciscanos: fazermo-nos como Jesus que nos torna mais homem e mulher na nossa existência franciscana. A encarnação de Jesus significa também um ato político porque é uma ação da Trindade para o bem comum trazido pela salvação que nos é proposta. Não podemos deixar de destacar que é um dos aspectos de significado. A encarnação também assume outros aspectos, mas todos passam pela condição humana. E a Regra é clara, nossa consciencia de seguimento de Cristo Homem perfeito é que nos torna mais humano, como foi destacado acima.
O artigo termina com duas expressões: “competência e espírito de serviço cristão”. Nesta última parte vamos tratar de dois aspectos da vocação franciscana: a formação e a ação. Não podemos deixar de lembrar da perspectiva política presente na vocação franciscana. A competência é uma condição de formação que é adquirida no decorrer da vida. A competência é um acúmulo de informações e habilidades que contribuirão no resultado esperado pela ação. Não dá pra ser franciscano “-de orelhada”. Aquele comportamento de achar que é assim e dar opiniões sem entender do que se está falando é o oposto do que se pretende na vivência da nossa vocação. O franciscano que generosamente se propõe em cultivar o aspecto político na sua vida precisa estudar e acumular novas experiências de conhecimento. Quem quer fazer parte de um conselho de saúde e colaborar no bem comum na política de saúde tem que estudar as normativas e instruções sobre o Sistema Único de Saúde. Quem quer colaborar com as pastorais sociais tem que estudar a Doutrina Social da Igreja. Qualquer atuação depende de acúmulo de conhecimento e reflexão. Só deste caminho podemos adquirir competência. Por fim, nossa ação nasce do espírito de serviço cristão sustentado na nossa competência humana e espiritual. Nosso serviço tem um espírito e um adjetivo: cristão. Temos de nos conformar com as ações e o Espírito do Senhor. Nossa prática tem que se fundir com o Evangelho de tal maneira que o que fizermos será sinal do Evangelho. Nosso Seráfico pai dizia: “Preguem o Evangelho a todo o tempo e se precisar use palavras”. Se o Evangelho é bem comum e a política é a arte do bem comum, podemos dizer que a política é também ação do Evangelho, é uma forma de pregação sem palavras.
O momento político que vivemos é desafiador sem dúvida nenhuma, porém é na crise que aparecem os franciscanos. São Francisco viveu numa época de crise na Igreja medieval. A Igreja que era o poder espiritual e político de seu tempo. A Igreja que vivia em grande ostentação e acúmulo de riquezas temporais. Nosso ponto de partida em relação à política é o Artigo 14 de nossa Regra.
Neste ano temos eleições. Sejamos franciscanos também na escolha dos representantes para nossa nação e estados. Escolhamos mulheres e homens alinhados com a opção pelos pobres, pelo poder que é serviço. Olhemos para a vida das pessoas e não só para os discursos de ocasião. Nossa responsabilidade vocacional é escolher pessoas que sejam coerentes com o Reino de Deus, principalmente em suas ações. Vote consciente e cuidado com fake news.