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“A Páscoa de São Francisco, um evento de esperança” A BELEZA E O ATRATIVO DA VIDA CRISTÃ “LOUVAI E BENDIZEI MEU SENHOR…” (Frei Pedro Zitha, OFM)

Introdução
Quando se trata da beleza e do atrativo da vida cristã, é crucial tentar não ser parcial; ou melhor, é essencial entender que, se tal tema fosse tratado por um nãocristão, sem dúvida teríamos uma interpretação que, partindo de outro ponto de vista, poderia levar a conclusões que podem ser positivas, mas também negativas. No entanto, nunca se deve esquecer que “A beleza existe apenas através da percepção de quem observa.” Isso, é claro, diz muito sobre como a beleza deve ser definida. A percepção, o afeto, a admiração, as experiências e o amor sempre influenciarão a visão da beleza de todos. A beleza cristã é inseparável do paradoxo da cruz que une a morte e a ressurreição. Francisco de Assis, homem de oração, alimentou um profundo amor por Cristo e este amor o levou a observar, a sentir-se atraído, a abraçar, mas também a ouvir o Crucifixo de São Damião, do qual não apenas ouviu a voz que lhe falou, mas no qual também contemplou a beleza de Deus no sofrimento. Nesta reflexão, Francisco começou a ver uma realidade sobre Deus e aprendeu a viver o evangelho de forma literal, o que o levou a cantar os louvores de Deus e a ver as bênçãos de Deus em toda a criação. No testemunho de São Francisco de Assis, encontra-se um padrão luminoso de contemplação autêntica – onde a alma, purificada pela graça, contempla o esplendor de Deus refletido em toda a criação. Para Francisco, esta visão contemplativa não era abstrata, mas profundamente encarnada, despertando nele um hino ininterrupto de louvor. Em cada criatura, ele podia discernir um sinal sacramental da beleza divina, que o levou a uma vida de adoração contínua e gratidão alegre para com o Criador, cuja glória impregna tudo o que existe. Espero que esta reflexão, inspirada no exemplo de São Francisco de Assis, envolva todos os que a lerem nesse mesmo horizonte contemplativo no qual, com o coração sintonizado pela graça, aprendamos novamente a reconhecer a beleza de Deus que se manifesta na criação. Ao recuperar esta visão, somos convidados não apenas a louvar, mas também a assumir a responsabilidade que cada um de nós tem de proteger e cuidar do que Deus criou, para que a nossa vida cristã se torne, como a de Francisco, um hino vivo de reverência, gratidão e fiel administração. A beleza da vida cristã Como atesta a santidade de São Francisco de Assis, a beleza da vida cristã não se define pelo conforto, sucesso ou perfeição exterior, mas pela conformidade com Cristo especialmente através do paradoxo da Cruz e da glória da Ressurreição. Esta beleza transcende o que é agradável à vista física e se desdobra diante do olhar do espírito. É uma beleza que revela a harmonia interior da verdade, bondade e amor, irradiada por uma alma transformada pela graça e atraída para a comunhão com Deus. A vida mais bela, quando avaliada exclusivamente com base em medidas externas e físicas, pode parecer fragmentada e diminuída; no entanto, quando contemplada à luz da fé, revela-se radiante e profundamente atraente porque participa da própria vida de Cristo. Como escreve São Paulo Apóstolo na Segunda Carta aos Coríntios (2 Coríntios 4,7-9), “Temos este tesouro em vasos de barro” – vasos frágeis que não manifestam a perfeição humana, mas o extraordinário poder da graça divina. Deste modo, o que parece fraco se torna o lugar onde a glória de Deus brilha com maior clareza. Na cruz, os olhos da fé se abrem para perceber, receber e encontrar o mistério do amor extraordinário de Deus. Ali, na auto oferta de Jesus Cristo, contemplamos a plenitude da caridade divina tornada visível no mistério da Cruz. Jesus se entrega completamente pela salvação da humanidade, abraçando livremente a Cruz, suportando o sofrimento e a humilhação, e renunciando à sua própria vida. No entanto, esta renúncia não é marcada pela desesperança, mas cheia de um amor duradouro – porque é o amor que o sustenta, o amor que redime, o amor que revela a beleza mais profunda de Deus. As fontes franciscanas costumam descrever São Francisco de Assis como um homem consumido por uma profunda sede de Deus, cuja busca foi genuína e total. Sua vida foi caracterizada por um único desejo que ordenava todo o resto: “Sua maior aspiração, seu desejo predominante, sua vontade mais firme era observar o santo Evangelho perfeitamente e sempre, e imitar fielmente, com toda vigilância, com todo empenho e com todo entusiasmo de alma e coração, a doutrina e o exemplo de nosso Senhor Jesus Cristo.”¹ Nesta total conformidade com Cristo, Francisco revela a essência da vida cristã como um movimento contínuo de amor, sempre em busca de uma união mais profunda com Deus. O mundo moderno tende a medir a beleza pela visibilidade, sucesso, conforto e autonomia, padrões que podem tornar uma vida moldada pela Cruz pouco atraente ou mesmo incompreensível. Uma cultura de constante distração, consumismo e imediatismo pode obscurecer o olhar contemplativo, dificultando o reconhecimento da beleza silenciosa, sacrificial e interior que surge da comunhão com Deus. Francisco de Assis não descobriu algo inacessível para nós; ele viu com olhos purificados pela conversão. Sua simplicidade radical, amor pela criação e total conformidade com Jesus Cristo permitiram-lhe perceber a beleza onde outros viam pobreza, sofrimento ou nada. A questão, então, é menos o que falta à nossa geração em termos de habilidades e mais sobre quais hábitos de visão estamos cultivando.² A mesma beleza ainda pode ser encontrada onde há espaço para o silêncio, a oração e o testemunho autêntico. O momento presente não pode ser apenas um momento de crise, mas também um convite: um convite para recuperar uma forma contemplativa de ver, viver o Evangelho com integridade e revelar, mais uma vez e através de escolhas concretas, que a vida cristã, mesmo em sua simplicidade e sacrifício, é profunda e duradouramente bela. O louvor de Francisco a Deus A conversão de São Francisco e seu amor pelo Evangelho o levaram a uma compreensão mais profunda e a reconhecer que tudo começa e termina com Deus e não com o sucesso, poder, prestígio ou controle humano. Em suas famosas palavras, “Louvado sejas, meu Senhor”,³ expressa sua alta estima e gratidão a Deus, a quem se coloca na posição de uma mera criatura que, reconhecendo que foi criada por Ele, deve dar uma resposta adequada de gratidão ao seu Criador. Assim, a vida de São Francisco tornou-se uma melodia de louvor, expressa não apenas com palavras, mas também com ações, mediante a simplicidade, a misericórdia, a alegria e o amor por Deus e pelo próximo. A vida de oração e penitência de São Francisco ajudou-o a superar uma aparência simples e óbvia do cosmos e o conduziu a uma descoberta mais profunda: que todas as criaturas provêm do mesmo Pai amoroso e vivo, e que a humanidade não é a dona da criação, mas está em uma posição de fraternidade com todas as áreas da criação. O louvor de Francisco a Deus revela o quanto sua vida de oração, sua humildade radical, sua gratidão e sua visão de Deus se tornam uma melodia de verdadeiro louvor. Tomás de Celano descreve Francisco como um santo que, “quando olhava para o sol, a lua, as estrelas do firmamento, sua alma se enchia de alegria… assim como os três jovens lançados na fornalha de fogo convidaram todos os elementos a glorificar e bendizer o Criador do universo, assim este homem, cheio do espírito de Deus, nunca se cansou de glorificar, louvar e bendizer, em todos os elementos e em todas as criaturas, o Criador e soberano de todas as coisas.”⁴ Francisco de Assis experimentou a beleza de Deus mesmo nos momentos mais difíceis que seu frágil corpo viveu. Até os últimos momentos de sua vida, continuou convidando seus irmãos a cantar os louvores do Senhor.⁵ Uma oração espontânea de louvor que nem a doença, nem a fragilidade, nem a morte iminente puderam abrandar refletia o amor de Francisco e sua profunda conexão com Deus e a criação. Os Franciscanos como promotores da beleza da vida Cristã Os Franciscanos, seguindo o exemplo de São Francisco de Assis, têm sido há muito tempo testemunhas e promotores de uma beleza que não se limita a agradar os sentidos, mas que mergulha o coração humano nas profundezas do mistério cristão. Enraizados na pobreza, na humildade e na fraternidade alegre, seu modo de vida revela que o próprio Evangelho é belo quando vivido com simplicidade e amor.⁶ No abraço da criação, visto como um reflexo da bondade de Deus, no respeito aos pobres e marginalizados, e na alegre proclamação de Cristo crucificado e ressuscitado, a tradição franciscana oferece um ícone vivo do que pode ser a vida cristã. Esta beleza não é decorativa nem superficial; é a beleza de uma vida transformada pela graça, onde o desapego se torna liberdade, o serviço em alegria e a pobreza em um espaço de comunhão com Deus. Em um mundo muitas vezes atraído pelo esplendor exterior, mas caracterizado pela inquietação interior, o testemunho franciscano desperta suavemente uma visão diferente: aquela segundo a qual a beleza mais cativante se encontra em um coração conformado a Jesus Cristo, radiante em sua simplicidade e aberto ao amor. Deste modo, os franciscanos continuam convidando os cristãos não apenas a admirar o Evangelho, mas a vivê-lo como a forma de vida mais bela. Durante as celebrações do Jubileu de São Francisco de Assis, a Família Franciscana voltou a tentar recordar ao mundo cristão e, de fato, a toda a humanidade, que o espírito de Francisco continua chamando cada pessoa a uma renovada contemplação da beleza da criação, obra de Deus. A vida de São Francisco continua sendo um convite a ver o mundo não como uma propriedade a ser explorada, mas como um dom que deve ser recebido com gratidão e respeito, pois reflete a bondade do Criador. Em continuidade com esta visão, o Papa Francisco, em suas encíclicas Laudato Si’ e Fratelli Tutti, lançou um sincero apelo a toda a humanidade para que possa redescobrir o valor da criação e a dignidade de cada pessoa. Na Laudato Si’, o Papa Francisco pede uma ecologia integral⁷ que combine o cuidado com o meio ambiente e o cuidado com a família humana, enquanto na Fratelli Tutti pede um renovado senso de fraternidade e solidariedade universal.⁸ Um renovado senso de fraternidade universal para os franciscanos, no espírito de São Francisco de Assis, não começaria com estruturas ou redefinições de identidade, mas com uma conversão evangélica mais profunda, aprendendo novamente a ver cada pessoa e toda a criação como irmãos e irmãs dados por Deus. Tal renovação significaria recuperar a fraternidade como forma de vida e não como forma de organização. Francisco não foi o primeiro a construir um sistema de fraternidade; ele começou seu caminho de conversão tornando-se irmão de todos, conformando sua vida a Jesus Cristo, especialmente na humildade, minoridade e doação de si. Dessa conversão centrada em Cristo, surgiu naturalmente uma nova relação com os outros, caracterizada pela reverência, simplicidade e paz. Para São Francisco de Assis, a fraternidade nunca foi uma abstração nem simplesmente um ideal sociológico; antes, é uma forma de vida evangélica vivida, enraizada na conversão a Cristo. Sua visão da fraternidade se estendia a toda a criação e a cada pessoa, e sempre se expressava dentro de uma comunhão eclesial concreta e um estilo de vida disciplinado. Para a Família Franciscana de hoje, este equilíbrio entre a universalidade do espírito e a concretude da forma é muito importante. O chamado à fraternidade e à solidariedade – tão central para o espírito franciscano – é precisamente o que permite a comunhão através de estruturas, que não devem ser apagadas, mas cuja forma de vida deve ser transfigurada. As diferentes famílias franciscanas continuam sendo dons distintos dentro da Igreja, nos quais estão destinadas a se reconhecer como participantes da mesma inspiração evangélica: seguir Jesus Cristo na pobreza, na minoridade e na fraternidade alegre. Na Família Franciscana, de fato, as diferenças não são um problema a ser superado, mas um dom a ser recebido. As diferentes expressões do carisma franciscano não são versões concorrentes da mesma identidade, mas formas distintas em que a forma individual de vida do Evangelho se enraizou na história.⁹ Quando vivida fielmente, essa diversidade se torna em si mesma um sinal de beleza eclesial: uma unidade que não apaga a diferença, mas a transfigura. Vista dessa perspectiva, a beleza da singularidade franciscana pode desempenhar um papel fundamental em despertar a sociedade contemporânea para a beleza da vida cristã. Em um mundo muitas vezes caracterizado pela fragmentação e pela uniformidade impostas de fora, a tradição franciscana testemunha outra possibilidade: a da comunhão na diversidade, da simplicidade sem homogeneidade e da unidade baseada não em uma estrutura, mas em uma conformidade compartilhada com Jesus Cristo. Quando cada ramo da Família Franciscana vive autenticamente seu próprio carisma – seja na contemplação ou na missão, no serviço aos pobres ou no cuidado da criação – diferentes facetas da própria beleza do Evangelho são reveladas. Juntas, essas expressões distintas formam uma espécie de harmonia espiritual: não notas uniformes, mas uma única melodia interpretada em diferentes tons. Nesse sentido, a identidade franciscana é mais frutífera para a Igreja e para o mundo não quando busca reduzir as diferenças, mas quando permite que essas diferenças se tornem transparentes para o Evangelho. Assim, a Família Franciscana se torna não apenas um lembrete da beleza da vida cristã, mas também um sinal vivo de que tal beleza continua sendo possível, ainda visível e capaz de transformar a maneira como o mundo percebe Deus, a criação e os outros. Conclusão Cada um dos batizados recebeu o mandato de ir ao mundo inteiro e proclamar a Boa Nova.¹⁰ Embora esta missão seja exigente, para realizá-la, Jesus nos assegurou a presença do Espírito Santo que nos acompanha e fortalece. Portanto, todos os franciscanos têm uma dupla responsabilidade. Tendo professado observar o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, são chamados não apenas a evangelizar, mas também a viver em harmonia com toda a criação. Nesse sentido, “devem respeitar todas as criaturas, animadas e inanimadas, que carreguem a marca do Altíssimo, e devem se esforçar para se afastar da tentação de explorar a criação para chegar ao conceito franciscano de parentesco universal.”¹¹ Os Franciscanos são chamados a se esforçar para se tornarem mestres autênticos, cujas vidas servem como testemunhas formativas, permitindo que outros contemplem a beleza e a integridade da criação. Esta vocação se manifesta através de um compromisso exemplar com o cuidado do meio ambiente e a promoção da justiça e da paz em um mundo dilacerado. Tal testemunho não é apenas ético, mas profundamente evangélico, refletindo o carisma franciscano de viver o Evangelho sine glossa – sem concessões. Nesse sentido, é importante lembrar que “a Igreja se reconstrói com as mesmas ferramentas com que foi construída: evangelização e testemunho de vida.”¹² Essas duas dimensões permanecem inseparáveis dentro da missão franciscana. Através de sua participação coordenada na missão salvífica de Cristo, os franciscanos entram em uma comunhão concreta e “corporal”, enraizada em sua identidade compartilhada como membros de um mesmo corpo. Esta comunhão vivida requer expressão prática em um espírito de corresponsabilidade entre a Primeira, Segunda e Terceira Ordens. Sempre que toda a Família Franciscana participa em sua missão, essa unidade deve se tornar visível mediante o serviço colaborativo, o apoio mútuo e um compromisso comum com a restauração da criação e a proclamação do Reino de Deus. Portanto, é crucial cultivar uma consciência da beleza da vida cristã como testemunho alegre e encarnado do Evangelho.
Notas: 1. 1Cel 84 2. Cf. Testamento, RNB 9 3. Cf. Cântico das Criaturas 4. 1Cel 80 5. 2Cel 217 6. Cf. Regra Bulada, cap. I. 7. Papa Francisco, Laudato Si’, n. 11 8. Papa Francisco, Fratelli Tutti, n. 6-8 9. Cf. Manual de Assistência ao OFS e JUFRA, n. 1.4 10. Mc 16,15 11. Manual para a Assistência ao OFS e JUFRA, n. 1.5 12. Manual para a Assistência ao OFS e JUFRA n. 1.5
Fonte: KOINONIA no. 130 – 2026, no. 2, agosto de 2026 – publicado no site do CIOFS https://ciofs.info/es/2026/08/04/koinonia-the-beauty-and-appeal-of-thechristian-life/