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A CRIACAO MOTIVO PARA LOUVAR A DEUS

Fr. Tomas Ginga Panzo Suva, OFMCap.

«Tu não precisas do nosso louvor,

mas, por um dom do teu amor, nos chamas a dar-te graças;

os nossos hinos de bênção

não aumentam a tua grandeza,

mas nos obtêm a graça que nos salva,

por Cristo, nosso Senhor». (IV Prefácio comum do Missal Romano)

INTRODUÇÃO

De fato, nossa louvor como seres humanos não confere nada de novo a Deus: Ele não precisa da louvor do homem, como afirma o prefácio IV comum do Missal Romano. É antes o homem que precisa gritar a Deus a sua alegria e satisfação por quem Ele é e pelo que Ele fez; da mesma forma, o homem também precisa fazer saber aos outros homens o que Deus é para ele e o que fez por ele: envolver os outros no mesmo hino de exultação corresponde à dinâmica da louvor.

Neste segundo número do nosso boletim formativo e informativo, Koinonia nos deteremos no subtema “A criação motivo de louvar a Deus”, integrado na reflexão do tema principal deste ano jubilar franciscano (O Cântico das Criaturas) e do jubileu universal da Igreja: “peregrinos da esperança”, em que o Papa Francisco convidou toda a Igreja a viver este ano de graça, procurando motivar os fiéis a renovar a sua fé e a procurar sinais de esperança em meio às dificuldades, como a paz, a abertura à vida, a atenção aos doentes, aos jovens, aos migrantes, aos idosos e aos pobres. Ele também destaca a importância da peregrinação como caminho de fé e conversão e convida a refletir sobre a reconciliação e o perdão dos pecados. A verdadeira esperança cristã é Cristo, o filho do Deus vivo, que passou por este mundo fazendo o bem[1].

A criação é um motivo fundamental para louvar a Deus, pois através dela se manifesta a sua grandeza, beleza e poder. A criação, com suas maravilhas e complexidade, é um reflexo do amor, da beleza e da sabedoria do Criador, convidando o homem a reconhecer e celebrar sua obra.

Portanto, antes de entrar nos detalhes do tema, vamos nos deter na compreensão do verbo “louvar” em suas várias nuances ou perspetivas.

Significado do verbo louvar

Para compreender profundamente o sentido e o significado do subtema “A criação motivo de louvar a Deus”, enquadrado no tema principal deste 8º centenário do Cântico das Criaturas (cântico do frade sol), parece-nos importante partir da compreensão morfológica e sintática deste verbo “louvar”.

O termo “lodare” é um verbo transitivo que vem do latim [laudare, derivado de laus laudis “louvor”] (io lòdo, etc.)[2]. Corresponde aos seguintes significados:

1- a. “Expressar com palavras a aprovação pelas qualidades, atos, obras ou comportamento de uma pessoa; ou ainda, declarar, reconhecer como merecedor de louvor”

– b. “Mais genericamente, falar bem de alguém ou de alguma coisa”[3].

2- “celebrar com palavras ou hinos de exaltação e reverente homenagem: louvar o Senhor; E todos vós que louvais o Amor em rima [PETRARCA Canz. XXVI, 9] seja louvado Jesus Cristo!, fórmula de saudação entre religiosos (que tem como resposta: seja sempre louvado!) seja louvado o céu!, seja louvado Deus, Deus!, Deus seja louvado!, exclamações de alívio ou satisfação por ter obtido o que se esperava”[4]

-Louvar no sentido religioso, as raízes bíblicas:

O verbo louvar, no sentido estritamente religioso, é entendido como um ato de culto ou como expressão de religiosidade: louvar a Deus, os santos, exaltar com cânticos ou palavras devotas a glória celestial, ou dirigir-lhes hinos, orações de agradecimento.

“A louvor brota quando o movimento da oração tende a privilegiar a atenção a Deus, mesmo considerado em sua relação com o homem: então, a alma de quem ora é tomada por um sentimento de admiração, de perplexidade, de surpresa; o contato com o mistério surpreende, e da surpresa nasce o louvor”[5].

Na Bíblia, a louvor está relacionada com outras formas de oração, tais como a ação de graças e a bênção (Sl 35,18; 69,31; 109,30)[6], porque «Deus se revela digno de louvor por todos os seus benefícios para com o homem» e as outras criaturas[7]. A louvor é uma forma de oração que consiste fundamentalmente em reconhecer a Deus a sua grandeza e o seu amor sem limites, pelo que: “louva-se a Deus porque é Deus”[8]

O Cântico das Criaturas/“Cântico do Frei Sol” de São Francisco de Assis é realmente um cântico, um hino com raízes bíblicas, cujas referências e inspiração podem ser encontradas nos seguintes textos bíblicos:

No primeiro testamento (A.T.)

No primeiro testamento, os cânticos de louvor “multiplicam as palavras para tentar descrever Deus e as suas grandezas. Cantam a bondade de YHWH, a sua justiça (Sl 145,6-7), a sua salvação (Sl 71,15), o seu socorro (1Sm 2,1), o seu amor e a sua fidelidade (Sl 89,2; 117,2), sua glória (Êx 15,21), sua força (Sl 29,4), seu maravilhoso desígnio (Is 25,1), seus julgamentos libertadores (Sl 146,7); tudo isso, na medida em que resplandece nas maravilhas de YHWH (Sl 96,3 ), nas suas grandes ações, nas suas proezas (Sl 105,1-3; 106,2 ), em todas as suas obras (Sl 92,5-6 )».

Portanto, Deus é o centro da louvor, pelo qual, a partir das obras, se remonta ao autor[9]. “Grande é YHWH e digno de todo louvor!” (Sl 145,3). “YHWH, meu Deus, tu és tão grande, revestido de majestade e esplendor!” (Sl 104,1; cf. 2Sm 7,22; Gdt 16,13 ). Os hinos cantam o grande nome de Deus (Sal 34,4; 145,2; Is 25,1 )[10].

– No livro de Êxodo 15 – o cântico novo;

– O cântico dos três jovens no livro de Daniel (Dn 3, 8-28), interpretado como um escrito apocalíptico;

– Salmo 104 – elogio à beleza e ao poder de Deus na criação e no governo do universo;

No segundo testamento (N.T.)

O Novo Testamento “conserva à confissão este lugar dominante na louvor: louvar a Deus consiste sempre, em primeiro lugar, em proclamar as suas grandezas, solenemente e amplamente à sua volta (Mt 9,31; Lc 2,38; Rm 15,9; Hb 13,15; Fl 2,11)”, segundo a enciclopédia católica cathopedia. Em linha com estas várias formas de louvor, nascidas do contacto com o Deus vivo, eis outros louvores que se tornam cânticos:

– Lc 1, 46-55; Lc 1, 68-79; O cântico de Maria e de Zacarias (Magnificat, benedictus);

– Ef 1 – ser o hino de louvor a Deus;

Louvar a Deus, portanto, significa exaltá-lo, magnificá-lo (Lc 1,46; At 10,46); ainda significa reconhecer sua grandeza e superioridade únicas, pois Ele é aquele que habita no mais alto dos céus (Lc 1,14), pois Ele é santo (Sl 30,5) e digno de todo louvor.

São Francisco amava e conhecia a Bíblia, por isso o Cântico das Criaturas se inspira nela, trazendo à luz uma visão positiva da natureza, uma ideia da criação e da bondade de Deus. Encontramos essa ideia em muitos passos da Bíblia, onde a grandeza de Deus (Sab 13,5) se afirma através de suas obras. E, no cântico do frade sol, São Francisco confirma esta verdade, apresentando-nos a ideia da criação como espelho de Deus, ao qual somos chamados e convidados a louvar (a Deus) através de todas as suas criaturas, que são elementos da natureza (o sol, a lua, o vento, a água, o fogo e a terra), criadas para o homem e para a sua felicidade.

A Criação motivo para louvar a Deus

A criação é realmente motivo para louvar a Deus, pois através dela se manifesta a sua grandeza, beleza e poder. A criação, com suas maravilhas, complexidade e diversidade, é um reflexo do amor e da sabedoria do Criador, convidando o homem a reconhecer e celebrar sua obra criadora e redentora. Deus não apenas a criou e salvou, mas continua a sustentá-la com sua providência.

Para São Francisco, a natureza é um dom de Deus e um meio para Ele louvar. Francisco nos convida, através deste cântico, a reconhecer e devolver a primazia e a potestade divina que se revela em todos os aspectos da criação e a aceitar com gratidão a sua bondade em todas as fases da vida até a morte, como sinal do seu amor sem limites. E ainda, “o sol, a lua, as estrelas, o vento, as estações, a água, o fogo e a terra são apresentados como manifestações transparentes da potência e da bondade do Criador, acessíveis a todos os homens”[11]. Portanto, Deus é acessível a todos, sem distinção, e sua providência é um dom universal para todos os homens e mulheres.

São Francisco compreende profundamente que toda a criação é obra de Deus, por isso, para homenagear este Deus vivo, ele o louva e exalta em todas as criaturas, tal como proclama solenemente o salmo 148, que convida todas as criaturas a louvar a Deus. O cântico do frade sol representa um momento de crescimento e amadurecimento no itinerário espiritual do serafino de Assis.

Francesco Gioia, em seu ensaio (São Francisco, irmão de todos e de tudo), afirma claramente que “o louvor das criaturas” brota das duas premissas iniciais: se Deus não pode ser nomeado, pode-se glorificá-lo nos seres que Ele criou para o homem”.

A gratidão

A gratidão é uma virtude que o mundo e as sociedades de todos os tempos precisam aprender e ensinar, para construir e sustentar relações que sejam transversais a todos os níveis da existência. São Francisco, no cântico do “frate sole”, ensina-nos que louvar a Deus é tarefa das criaturas, pois através desse louvor exalta-se o amor de Deus, que se manifesta nas criaturas e que, ao mesmo tempo, “torna-se um hino à vida”[12]

Se a louvor está relacionado com a gratidão e a bênção, São Francisco nos convida e nos ensina a matricular-nos nesta escola de gratidão e bênção, pois nunca se termina de aprender a agradecer e a bendizer.

O contexto em que o cântico do frade sol nasceu ou foi escrito, dizem as fontes a respeito: “pouco antes de sua morte”[13], ou seja, entre o final do ano de 1224 e o início de 1225, quando se encontrava em São Damião, afligido e atingido por vários sofrimentos, entre os quais uma grave doença nos olhos[14] que o impedia de suportar a luz do dia[15], certamente num período de inverno, “em que a manhã fria, após uma noite de insônia em que foi atormentado por ratos que nem mesmo lhe permitiam rezar e depois de ter recebido do Senhor a certeza da salvação eterna”[16]. Francisco nos ensina a louvar a Deus em todas as circunstâncias da vida: na saúde, na doença, na dor, no choro e, finalmente, também na morte, porque: “bem-aventurados aqueles que te amam em paz, pois por Ti, Altíssimo, serão coroados”.

Quantas vezes estamos mais a lamentar-nos do que a agradecer e louvar a Deus por todos os acontecimentos da nossa vida? Francisco deixa-nos um ensinamento atual e talvez útil para suportar os acontecimentos da vida quotidiana.

O sentido da fraternidade e da universalidade no cântico das criaturas

São Francisco de Assis é considerado o irmão universal, porque encarnou em seu profundo desejo de conversão a Deus, procurando ser irmão de todos e de tudo; isto é, irmão dos homens, dos animais e da natureza que o rodeava e, obviamente, do ponto de vista cristão, irmão de Cristo[17]. Essa compreensão universal é justificada por sua “relação com os outros”, esses outros são o universo, os homens, os animais e a Pessoa de Cristo, vistos como “um mosaico harmonioso, embora cada um tenha sua própria autonomia”, mas todos “foram redimidos pelo sangue do Redentor”[18].

Além disso, vale ressaltar que São Francisco de Assis não é um panteísta, como houve na história das regiões e da filosofia, tentativas de identificar Deus com o mundo e o mundo com Deus; ou Deus não é concebido como transcendente, separado do mundo, mas algo inerente ao universo e presente em todas as coisas. Francesco Gioia, em seu ensaio[19], afirma a este respeito: “a atitude de São Francisco em relação a todas as criaturas não é consequência de uma filosofia ou de uma mística, como acontece sobretudo para aqueles que têm uma conceção panteísta explícita ou implícita da natureza, segundo a qual ‘Deus é tudo e tudo é Deus’[20].

O Cântico das Criaturas/Cântico do Frade Sol é a prova evidente e a chave para compreender e interpretar por que “ele chamava todas as criaturas de irmãos e irmãs”, porque tinha Deus como PAI de todos e de tudo. E ainda: “sua atitude para com tudo e todos reside na sua profunda convicção de que a criação é uma teofania, uma revelação de Deus”[21]. Por isso, “laudato sie, mi’Signore, cum tutte le tue creature (…)” (v. 5).

CONCLUSÃO

Considerando a criação como motivo para louvar a Deus na perspetiva do cântico do frade sol, podemos destacar alguns aspetos que nos parecem essenciais e que podem ser fundamentais para a compreensão e a leitura desta magnífica obra literária, que para alguns é um verdadeiro “documento espiritual”. Eis esses aspetos:

1. Manifestação da grandeza divina:

As obras da criação, desde as estrelas no céu até os organismos mais pequenos, testemunham o imenso poder e majestade de Deus.

2. Beleza e harmonia:

A beleza da criação, com suas cores, formas e sons, é um convite a contemplar a perfeição da obra divina e a louvar sua capacidade de criar coisas belas e harmoniosas.

3. Providência Divina:

A criação não é apenas bela, mas também funcional, provendo as necessidades da vida e mantendo o equilíbrio do ecossistema. Essa providência divina é motivo de gratidão e louvor.

4. Convite à contemplação:

Observar e admirar a criação pode levar a uma maior consciência da presença de Deus e a um desejo mais profundo de louvá-lo.

5. Reconhecimento da nossa dependência:

A criação nos lembra que somos criaturas dependentes de Deus para nossa existência e bem-estar, levando-nos a reconhecê-Lo como fonte de todo o bem.

Em essência, nestes cinco aspetos, podemos compreender que a criação não é apenas um conjunto de coisas materiais, mas um livro aberto que revela a glória de Deus e inspira o homem a louvá-Lo por suas obras maravilhosas e providenciais.

Por fim, o cântico do frade sol é “um instrumento eficaz para a edificação do próximo, por isso, irmãos e irmãs: «louvai e bendizei meu Senhor e agradecei-lhe e servi-lhe com grande humildade».