Pesquisar

IRMÃ MORTE

Introdução

Neste ano em que se celebra o Oitavo Centenário da morte de São Francisco, impõe-se a quem se dedica ao estudo da vida franciscana a tarefa de escrever, ainda que sucintamente, algumas considerações sobre a morte dele.

Sem maiores pretensões, numa rápida visão histórica, esta reflexão tenta situar no tempo e no espaço o acontecimento. E a partir especialmente das fontes hagiográficas procura investigar a causa mortis do grande santo. A seguir, retoma uma leitura sobre os momentos finais dele na Porciúncula. Finalmente, uma abordagem sobre a maneira como Francisco considerava a morte.

1 – Local e data da morte

Todos os relatos são unânimes em apontar o eremitério de Santa Maria dos Anjos como o lugar da morte de São Francisco. Tendo-se hospedado aproximadamente durante um mês no palácio do bispo de Assis, o próprio Francisco pediu para ser transportado para a Porciúncula, pois queria morrer lá onde ele dera início à Ordem[1].

Com relação à data, a primeira notícia da morte de São Francisco foi comunicada oficialmente por Frei Elias, então vigário da Ordem, poucos dias depois da morte do santo. Em sua carta encíclica ele escreve: “Na primeira hora da noite precedente ao dia 4 de outubro, num dia de domingo, nosso pai e irmão Francisco migrou a Cristo”[2].

A segunda notícia é dada pela bula de canonização de São Francisco (celebrada no dia 16 de julho de 1228), Mira circa nos, escrita três dias depois da canonização, a saber no dia 19 de julho. Diz o texto no número 9: “Estabelecemos que no dia 4 de outubro, a saber, no dia em que ele, livre do cárcere da carne, chegou ao Reino celeste, se celebre pela Igreja universal, de maneira devota e solene, o seu nascimento [para o céu]”.

Entre estas duas notícias se percebem certas nuances. Elias situa a morte na noite precedente e afirma que o dia 4 de outubro daquele ano (1226) caiu num domingo. Já a bula não faz alusão à noite precedente nem ao dia da semana.

O primeiro hagiógrafo, Tomás de Celano, retoma a notícia de Elias com relação ao domingo, mas se cala a respeito da noite precedente: “No ano de 1226 da Encarnação do Senhor, na décima quarta indicção, no dia 4 de outubro, num domingo, nosso beatíssimo pai Francisco, na cidade de Assis, …, saindo do cárcere da carne, voou de maneira feliz às mansões dos espíritos celestes”[3].

E alguns anos depois Tomás de Celano apenas noticia a data: “No ano de 1226 da Encarnação, no dia 4 de outubro, …., Francisco, homem apostólico, desprendido dos grilhões da vida mortal, migrou de maneira feliz a Cristo”[4].

O cronista Jordano de Jano fornece a data, mas não entra em detalhes: “No ano do Senhor de 1226, no dia 4 de outubro, o principal fundador da Ordem dos Frades Menores, o glorioso pai Francisco, migrou ao Senhor em Santa Maria da Porciúncula”[5].

São Boaventura retoma a notícia dada por Frei Elias: “O venerável pai saiu do naufrágio deste mundo no ano de 1226 da Encarnação do Senhor, no dia 4 de outubro, numa tarde do dia de sábado, e foi sepultado no domingo”[6].

As compilações do século XIV só fazem alusão ao dia 4 de outubro numa previsão do médico que atendia Francisco nos últimos dias: “Pai, segundo a nossa medicina, tua doença é incurável, e morrerás ou no fim do mês de setembro ou no dia 4 de outubro”[7].

Embora sejam diferentes as formulações sobre a data da morte de Francisco, no entanto, não há contradição entre os diversos autores. Todos concordam sobre o dia 4 de outubro. As pequenas discrepâncias entre os relatos a respeito do dia da semana são resolvidas, quando se leva em conta que na Idade Média a maneira de contar as horas do dia era diferente dos dias de hoje. O entardecer ou anoitecer era já considerado o dia seguinte. Segundo esta maneira, Francisco morreu na noite do sábado que naquele tempo já era contada como domingo. Por isso, para todos os autores a data é de 4 de outubro que se estendia do entardecer do dia 3 ao entardecer do dia 4.

2 – Causa mortis

Os diversos relatos que narram a morte de Francisco não oferecem uma única causa mortis. No entanto, eles nos permitem uma dedução bastante próxima. A primeira hagiografia já fornece eloquentes elementos. Diz o autor: “No sexto mês antes do dia de sua morte, estando em Sena para tratar da enfermidade dos olhos, começou a adoecer gravemente em todo corpo e, estando debilitado o estômago por longa doença e pelo mau estado do fígado, vomitou muito sangue, de modo que parecia aproximar-se da morte… Chegando ele e permanecendo ali por algum tempo, o ventre dele se dilatou, as pernas intumesceram, os pés incharam, e o mal do estômago atacou cada vez mais, de modo que mal conseguia tomar algum alimento”[8].

Na Secunda Vida, Tomás de Celano acrescenta a doença do baço[9], o que levou Boaventura a catalogar as doenças de Francisco: “Ele sofria a doença dos olhos, do estômago, do baço e do fígado”[10].

Possivelmente com base no texto já citado da Vita prima de Celano, em que se fala da dilatação do ventre e do inchaço dos pés e das pernas[11], as compilações, partindo dos efeitos em busca das causas, acrescentam à coleção de doenças de Francisco a hidropisia[12].

Esta dedução não é fora de propósito, pois, sintoma de doenças hepáticas, cardíacas e renais, a hidropisia seria em Francisco consequência do mal estado de seu fígado. E nele se manifestava duplamente como hidropisia abdominal ou ascite (acúmulo de liquido na cavidade abdominal) e como intumescimento dos membros, como descrito por Tomás de Celano[13].

Boaventura alude ainda a um elemento que permite compreender a fragilidade da saúde que acompanhou Francisco durante a maior parte da vida. Trata-se da febre quartã[14], sequela da malária que Francisco teria contraído ainda jovem, muito provavelmente quando foi feito prisioneiro após a participação na batalha contra Perúgia. Tomás de Celano fala da doença contraída na juventude, mas não especifica que Francisco a tivesse contraído na prisão[15]. A Legenda dos Três Companheiros, ao contrário, fala da prisão, mas se cala sobre a doença[16]. A junção dos dois relatos permite deduzir que a doença de Francisco teria sido adquirida na insalubridade da prisão de Perúgia.

Pelo que se sabe da malária, o primeiro órgão que ela atinge é o fígado. Deste modo, se pode deduzir que Francisco desde jovem estava predisposto às doenças originadas da malária.

A doença dos olhos (hoje identificada como tracoma), contraída por ocasião de sua visita ao Sultão, embora extremamente dolorosa, não é de se considerar causa mortis.

Há quem levante a hipótese de que Francisco teria morrido de tuberculose, doença muito comum na Idade Média. No entanto, os relatos falam que Francisco vomitou sangue. Vomitar está relacionado com o sistema digestivo, especialmente com fígado e estômago. A tuberculose não causa vômitos, mas hemoptise ou expectoração de sangue. Daí é difícil, a partir dos relatos, afirmar que a causa mortis teria sido a tuberculose.

Do conjunto de doenças abordadas, diríamos que a causa mortis de Francisco era constituída por um conjunto de deficiências de alguns órgãos vitais, especialmente do fígado, do estômago e do baço.

3 – Momentos finais

Momentos finais aqui são considerados os últimos dias de vida de Francisco, mais propriamente a última semana. Neste curto período, de acordo com os relatos, houve vários acontecimentos muito significativos. Destacam-se apenas três com um breve comentário.

a) Redação do Testamento

Embora as hagiografias não deem notícias claras sobre a data e local em que o Testamento foi escrito, estudos atuais situam a redação deste importante escrito de Francisco nos momentos finais de sua vida. Por causa dessa falta de notícias, surgiram diversas hipóteses, dentre as quais se destacam algumas.

Há quem afirme que a redação do Testamento tenha acontecido a partir do ano de 1224, dois anos antes da morte do santo, até outubro de 1226[17]. Outros são do parecer de que o texto foi redigido aos poucos a partir de maio de 1226 – momento em que Francisco ditou o Testamento de Sena – até outubro de 1226, tendo sido concluído no palácio episcopal de Assis[18].

Juntamente com K. Esser[19], defendemos que a redação do Testamento se situa na proximidade da morte de São Francisco, a saber, nos últimos dias de sua vida na Porciúncula. Documentos e relatos permitem esta conclusão.

A bula Quo elongati, de 1230, do Papa Gregório IX, ao datar a redação do Testamento, usa a expressão circa ultimum vitae suae[20]. Esta expressão não deixa dúvida de que se trata de proximidade ao último dia de vida, dos momentos finais de Francisco.

São Boaventura, escrevendo mais de 30 anos depois da morte de Francisco, certamente informado pelos antigos companheiros ainda sobreviventes de Francisco, afirma a ocasião da redação do Testamento:  in morte mandavit fratribus[21](no momento da morte ordenou aos irmãos).

Outro texto, Intentio regulae, atribuído a Frei Leão, mas de autoria incerta, poderia dar a entender que a redação do Testamento se tenha dado no palácio do bispo de Assis, para onde Francisco havia sido levado no final de agosto ou princípio de setembro de 1226. Interrogado por um irmão como deviam ser construídas as casas para os frades, Francisco respondeu exatamente como está escrito no Testamento[22]. No entanto, o episódio se conclui deste modo: “Por isso, escreveu depois no seu Testamento…”[23].

Ora, o “escreveu depois” (scripsit postea) indica outro momento, que só pode ter sido o da Porciúncula, para onde Francisco foi levado depois da curta permanência no palácio episcopal. Se a redação tivesse sido no palácio, a frase soaria assim: então escreveu em seu testamento(tunc scripsit in testamento suo).

Com base nestes relatos e documentos antigos, pode-se afirmar que o Testamento foi redigido na Porciúncula já bem próximo da morte de São Francisco.

b) Bênção dada aos irmãos

Nos últimos momentos de vida, Francisco abençoou os irmãos. Com relação à bênção, os vários relatos são especialmente divergentes. Até mesmo as hagiografias de um mesmo autor, Tomás de Celano, contêm pontos discrepantes.

Na primeira, o autor fala de uma bênção a todos os irmãos: “Abençoou a cada um conforme lhe fora dado do alto, como antigamente o patriarca Jacó a seus filhos ou como outro Moisés… cumulou de bênçãos os filhos de Israel”[24]. Em seguida, uma bênção solene especial e elogiosa dirigida de maneira consciente a Frei Elias, explicitamente mencionado[25].

Na segunda, a bênção é dada de modo igual a todos os irmãos. O autor cala-se a respeito da bênção especial a Frei Elias. Nega-lhe inclusive a menção do nome, identificando-o apenas pela sua função como vigário do santo[26].

As compilações tardias modificam o relato do primeiro hagiógrafo, deslocando a bênção especial dada a Frei Elias para Frei Bernardo[27].

Quanto ao lugar, se subentende a Porciúncula, pois o relato se ocupa dos últimos momentos de vida de Francisco. De fato, o hagiógrafo insere a bênção no relato (que começa em 2Cel 214) sobre o trânsito (que se deu na Porciúncula), possivelmente nas últimas horas que restavam ao santo.

c) Celebrar a morte

Francisco quis que seus últimos momentos fossem acompanhados por ritos celebrativos. O primeiro hagiógrafo, tanto na Primeira como na Segunda Vida, trata dos gestos rituais adotados pelo moribundo. Entre as duas Vidas, há ligeira modificação na ordem e na apresentação dos ritos, contendo a Segunda um elemento a mais do que a Primeira. Visto que a Segunda pode ter tentado completar algo que tinha faltado na Primeira, se toma como base deste comentário o texto da Segunda.

O texto tem a seguinte ordem: partilha do pão[28], leitura do Evangelho e recitação do salmo[29]; o cântico das criaturas[30], deposição de Francisco nu sobre a terra nua[31].

O hagiógrafo sugere um paralelismo entre a celebração de Francisco e a Última Ceia: “Recordava-se daquela sacratíssima Última Ceia que o Senhor celebrou com seus discípulos. Fez tudo isto em venerando memorial daquela ceia, demonstrando o afeto de amor que tinha para com os irmãos”[32].

Sem desprezar a interpretação do hagiógrafo, sustentamos que, mais do que reproduzir a Última Ceia, Francisco quis transmitir com símbolos e gestos alguns elementos fundamentais da vida do frade menor.

A partilha do pão recordava os irmãos que tudo entre eles devia ser partilhado: o salário do trabalho[33]; os livros e outras coisas[34]; inclusive as dificuldades da vida[35]. Partilhar converte-se em sinal concreto de fraternidade, é a maneira de o irmão “mostrar por obras o amor que tem para com o outro”[36].

A leitura do capítulo 13 do Evangelho de João não narra a instituição da eucaristia, mas o lava-pés. Ao pedir para ler este trecho, Francisco quis salientar dois elementos importantes do modo de vida franciscana. Primeiramente a minoridade, o colocar-se a serviço dos irmãos, o que constitui outro elemento concreto de fraternidade. O servir-se mutuamente deve ser característica da Ordem[37]. Neste espírito, ninguém se coloque acima dos outros, sejam sem exceção denominados frades menores, cabendo a cada um a tarefa de lavar os pés do outro[38]. Trata-se de seguir o exemplo do próprio Cristo: “Se eu, Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais” (Jo 13, 14-15)[39].

Em segundo lugar, pela leitura do Evangelho, Francisco quis salientar o mandamento de Cristo: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisto reconhecerão todos que vós sois meus discípulos” (Jo 13, 34-35).

Francisco não quer dar outro mandamento que o de Cristo. Na Regra não Bulada ele já tinha incluído este versículo de João[40]. E no pequeno Testamento de Sena este mandamento ocupa o primeiro lugar: “sempre se amem uns aos outros”[41].

O Salmo 141, classificado entre os salmos de lamentação, mostra, no entanto, a confiança que o orante deposita no Senhor: “Tu és meu refúgio, minha parte na terra dos vivos” (Sl 141, 6), um versículo usado por Francisco ao tratar da pobreza: “Esta é aquela sublimidade da altíssima pobreza que vos constituiu, meus irmãos caríssimos, herdeiros e reis do reino dos céus, vos fez pobres de coisa, vos elevou em virtudes. Seja esta a vossa porção que conduz à terra dos vivos”[42].

Francisco, depois de ter levado uma vida em busca da pobreza, diante da morte já se sente prestes a receber a sua herança na terra dos vivos. E, como que prevendo a recompensa do Senhor, conclui com o salmista: “Os justos ajuntar-se-ão ao meu redor, por causa dos bens que me fizeste” (Sl 141, 8).

O cântico do Irmão Sol foi cantado com o acréscimo do verso sobre a Irmã Morte. Segundo a Compilação Assis e do Espelho da Perfeição menor, este acréscimo se deu na Porciúncula[43].

O fato de incluir o Cântico na celebração de sua morte mostra o valor que Francisco dava a esse seu escrito. Embora composto mais para o final de sua vida (entre abril e maio de 1225), ele constituía como que o pleno desabrochar de toda a sua espiritualidade, integrando em sua visão de mundo todas as criaturas como filhas do mesmo Criador e, portanto, suas irmãs.

E a deposição de seu corpo nu sobre a terra nua[44]  ou sobre o cilício[45]  constitui uma profissão de sua radical pobreza. Ele morria nu como Cristo. Devolvia à terra seu corpo, do mesmo modo como o recebera (cf. Jó 1, 21). Despojava-se de tudo, sabedor de que seria revestido por Deus. Para revestir-se com as “vestimentas do reino dos céus”[46], era necessário despir-se radicalmente das vestes desta terra.

Portanto, momentos celebrativos muito intensos marcaram os últimos dias de Francisco.

4 – Irmã morte corporal

Para evitar possíveis ambiguidades, o termo “morte” nesta reflexão é tomado no sentido de término do ciclo natural da vida. Não pretende fazer apologia para mortes causadas que em língua portuguesa são classificadas pelo sufixo “cídio”.

Normalmente, a morte sempre carregou consigo um sentido negativo como realidade oposta à vida. Esta carga significativa sempre acompanhou a humanidade. Desde sempre existiu a pergunta: Como surgiram, e como explicar o sofrimento, a dor, a morte?

O Antigo Testamento tentou dar uma resposta a esse questionamento através mito do pecado original, em que o Éden era lugar sem sofrimento, sem dor, sem a morte. Foi com o pecado que estas realidades entraram no mundo e na vida dos seres humanos. A Eva foi dada a dor do parto: “Multiplicarei as dores de tua gravidez, na dor darás filhos à luz” (Gn 3, 16). A Adão, os sofrimentos e as lutas para o sustento: “Com sofrimento te nutrirás da terra todos os dias de tua vida; ela produzirá para ti espinhos e cardos, e comerás as ervas dos campos; com o suor de teu rosto comerás teu pão” (Gn 3, 17-19a). E a ambos a morte como castigo: “Até que voltes à terra, pois dela foste tirado. Pois tu és pó e ao pó tornarás” (Gn 3, 19b). Portanto, a morte corporal era considerada sequela do pecado original.

O Novo Testamento dá novo sentido à realidade da morte. Assumindo a fragilidade da condição humana em sua kénosis (cf. Fl 2, 6-11), com exceção do pecado (cf. Hb 4, 15), o Filho de Deus passou pela morte para vencê-la: “Morte, onde está a tua vitória? Morte, onde está o teu aguilhão?” (1Cor 15, 55). Cristo arrancou o aguilhão da morte, que é o pecado (1Cor 15, 56). Quebrando-se esse aguilhão, a morte perde seu sentido negativo.

Francisco tinha uma concepção positiva da morte, chamava-a de irmã, o que é documentado por vários de seus hagiógrafos: “Exortava ao louvor até a própria morte, terrível e odiosa para todos, e, indo alegre ao encontro dela, convidava-a à sua hospitalidade; disse: ‘Bem-vinda, minha irmã morte!’”[47]. Considerava-a como a porta da vida: “E disse ao médico: ‘Irmão médico, prognostica com coragem que a morte está próxima, ela para mim será a porta da vida!’”[48].

Donde vem a visão positiva de Francisco?

Para responder a esta pergunta não basta dizer que Francisco tinha fé e esperança na ressurreição. Ele tinha, além disso, uma concepção muito própria da morte, uma visão que se insere em seu modo de conceber a vida e de lidar com toda a realidade humana. Ao chamar a morte de irmã, ele supera a visão mítica da morte como castigo pelo pecado original.

Os hagiógrafos atribuem a Francisco uma maneira de ser própria do homem do paraíso. Diz Tomás de Celano, seguido por outros: “Creio que ele havia voltado à inocência primitiva”[49].

Eles veem a inocência primitiva na maneira de Francisco tratar os animais. A nosso ver, a inocência primitiva de Francisco é expressa especialmente na expressão “irmã morte”. Não se trata apenas de uma expressão poética, mas mostra uma maneira de conceber a morte.

Ele chama a morte de irmã, porque, como todas as criaturas, ela foi “criada” por Deus. Não como um ser, mas como condição inerente a todo ser vivo. Em outras palavras: todos os seres vivos foram criados como seres mortais, uma condição da qual nenhum ser vivo pode escapar, uma inevitabilidade bem expressa no Cântico[50]. O ser humano, mesmo no paraíso sem o pecado original, estava destinado à morte corporal.

Portanto, a morte corporal não é vista por Francisco como consequência ou castigo pelo pecado original; não é o oposto de vida, mas a completude, o ápice de um período aberto ao além. Ela não indica o voltar ao pó, mas é porta para a plenitude da vida.

Decorrente deste modo de pensar, Francisco vê a negatividade só no “pecado em si” e nas consequências dele, as quais nada têm a ver com a morte corporal. Para indicar esta realidade negativa do pecado, Francisco utiliza uma expressão do Apocalipse: “segunda morte” (cf. Ap. 2, 11; 20, 6). Esta “segunda morte” é o verdadeiro mal, é a condenação, reservada àqueles que morrem em pecado mortal[51].

O pecado, portanto, é a única realidade a temer, a única a desagradar ao frade menor[52], porque a única que o conduz à temível segunda morte.

Conclusão

Tentou-se abordar resumidamente as circunstâncias da morte de São Francisco, tendo como ponto de apoio os relatos dos hagiógrafos. Isto de maneira crítica, a saber, apontando as divergências entres os vários relatos. Depois, se passou a uma abordagem sobre a visão que Francisco tinha da Irmã Morte.

O trânsito que as fraternidades franciscanas celebram anualmente no dia 3 de outubro, além de ser uma recordação do ciclo final de uma vida santamente vivida, propõe uma visão positiva e esperançosa da Irmã Morte. Normalmente retratada como um esqueleto humano com a foice na mão, ela deveria ser representada como um anjo que toma o moribundo pela mão e o conduz ao abraço do Pai. A Irmã Morte faz parte da beleza da criação.

Frei Celso Márcio Teixeira OFM.


[1] Cf. 1Cel 108, 12 (As siglas das Fontes Franciscanas correspondem às adotadas por Fontes Franciscanas e Clarianas, Petrópolis, Vozes-FFB, 2004.

[2] El 25.

[3] 1Cel 88, 3; cf. 4Cel 17, 1; 5Cel 91, 1; hagiografias posteriores a Tomás de Celano, tais como Vida de São Francisco, de Juliano de Espira, a Legenda dos Três Companheiros, a Legenda Coral Umbra, a Legenda de Munique, simplesmente repetem esta notícia de Tomás de Celano; cf. Jul 73, 2; LTC 68, 1; LCU 9, 1; LMun 91.

[4] 2Cel 220a, 1.

[5] JJ 50.

[6] LM XV, 6, 1; na mesma linha de Boaventura, Salimbene de Parma escreve: “E morreu em 1226, no dia 4 de outubro, num dia de sábado à tarde e foi sepultado no domingo”; Slb 18.

[7] CA 100, 9; cf. 1EP 5, 9; 2EP 112, 6.

[8] 1Cel 105, 1. 4; cf. Vida Descoberta de São Francisco [5Cel 83] e Legenda Coral Umbra [LCU 3], que apresentam somente a enfermidade dos olhos e do estômago; compilações posteriores narram o mesmo episódio acontecido em Sena (CA 59, 1; 2EP 87, 1; 1EP 39, 23.

[9] Cf. 2Cel 130, 5.

[10] Cf. LM X, 6, 2; nesta mesma linha procedem as compilações do século XIV: cf. CA 77, 1-2; CA 81, 8-9; CA 119, 19; 1EP 22, 1; 2EP 34, 8; 2EP 62, 72; 2EP 91, 2-3.

[11] Cf. 1Cel 105, 4.

[12] Cf. CA 96, 4; CA 100, 2; 1EP 5, 2; 2EP 22,1; 2EP 122, 1.

[13] Cf. 1Cel 105, 1.4.

[14] LM VI 2, 5; cf. também CA 80, 2. 11; 2EP 61, 2.11.

[15] Cf. 1Cel 3, 1-2.

[16] Cf. LTC 4, 1-6.

[17] Goetz, Loofs, Sandini e Onings (este último propõe 1224 como data de origem do Testamento). defendem essa opinião, cf. Esser K., Il Testamento di S. Francesco d’Assisi, Milão, Edizioni Francescane, 1978, p. 70-71.

[18] Cf. Esser K., Il Testamento…, p. 71.

[19] Cf. Esser K., Il Testamento…, p. 75.

[20] Compilações surgidas no século XIV seguem esta mesma posição, embora empregando expressão diferente, circa mortem, que indica que a redação se deu na proximidade da morte de Francisco: cf. CA 55, 20-30; 58, 17; 2EP 9, 11.

[21] Bonaventura, Epistola de tribus quaestionibus, em Opere di San Bonaventura, Opuscoli Francescani XIV/1, Città Nuova, Roma 1993, n. 10, p. 104; cf. K, Esser, Il Testamento…, p. 72.

[22] Cf. Test 24.

[23] Intentio Regulae, em Documenta Antiqua Franciscana, ed. L. Lemmens, Quaracchi, 1902, p. 98, n. 15.

[24] 1Cel 108, 1.

[25] 1Cel 108, 2-7; o autor afirma a seguir que esta bênção foi dada enquanto Francisco ainda estava no palácio episcopal; cf. 1Cel 108, 11; na Segunda Vida ele sugere que foi na Porciúncula; e 2Cel 216, 5 ss.

[26] Cf. 2Cel 216, 5 ss.

[27] Cf. 2EP107, 2-9; AtF 5, 8-16; cf. um estudo mais pormenorizado nosso em Franciscanismo – Estudos e Reflexões, Belo Horizonte, Ed. Província Santa Cruz, 2019, p. 62 ss.

[28] 2Cel 217, 1.

[29] 2Cel 217, 2; cf. 1Cel 110, 1.

[30] 2Cel 217, 6-7; cf. 1Cel 109, 5.

[31] 2Cel 217, 10; cf. 1Cel 110, 3.

[32] 2Cel 217, 3-4.

[33] Cf. RB 5, 4.

[34] LTC 43, 4.

[35] Cf. RB 6, 9; RnB 9, 11.

[36] Cf. RnB 11, 6.

[37] Cf. RnB 5, 13.

[38] Cf. RnB 6, 3-4.

[39] Note-se que Francisco nunca se coloca como exemplo para os irmãos, embora compiladores afirmem que ele se considerasse exemplo dos demais; cf. CA 50, 24; 79, 6; 97, 12; 108, 2; 111, 4; 117, 32; 2EP 16, 3; 27, 16; 65, 2.

[40] Cf. RnB 11, 5.

[41] TestS 3.

[42] RB 6, 5-6.

[43] CA 5, 7 e 7, 12-14; 1EP 9, 7 e 10, 12-14; segundo o Espelho da Perfeição maior, se deu ainda no palácio do bispo; cf. 2EP 123, 12.

[44] 2Cel 217, 10; este ritual teria acontecido duas vezes, dentro de dois dias; cf. 2Cel 214, 6.

[45] 1Cel 110, 3.

[46] Cf. RnB 2, 15.

[47] 2Cel 217, 8; cf. Legenda de Munique, 85; Legenda Áurea 47; CA, 100, 10; 1EP 5, 10.12; 2EP 122, 7; 123 8-12.

[48] 2Cel 217, 9; cf. Legenda de Munique 85.

[49] 2Cel 166, 16; cf. 3Cel 14, 14; LM VIII, 1, 2; Lm 6, 5.

[50] Cf. Cnt 12.

[51] Cf. Cnt 13.

[52] Cf. Ad 11, 1.