Irmãos e irmãs, estamos reunidos neste Capítulo Regional da Ordem Franciscana Secular do Paraná, celebrando os 800 anos da morte de São Francisco de Assis. E temos diante de nós um lema muito provocador: “Comecemos, porque até agora pouco ou nada fizemos.” É uma frase que, à primeira vista, parece estranha. Afinal, São Francisco já havia feito tanta coisa! Havia deixado a riqueza, abraçado a pobreza, reunido irmãos, anunciado o Evangelho, enfrentado dificuldades e incompreensões e chegado ao final de sua vida profundamente configurado a Cristo. E, mesmo assim, dizia: “Comecemos.” Isso nos ensina que uma vocação nunca pode viver apenas daquilo que já fez. Enquanto houver vida, sempre haverá um novo começo.
O Salmo nos faz rezar: “Ensinai-nos a contar os nossos dias e dai ao nosso coração sabedoria.” Contar os nossos dias não é apenas saber quantos anos já vivemos. É reconhecer que o tempo é dom e responsabilidade. A vida passa, as oportunidades passam, as pessoas passam e também as nossas estruturas e maneiras de fazer as coisas precisam passar por renovação. Muitas vezes dizemos: “Depois eu faço. Depois eu mudo. Depois eu perdoo. Depois eu volto a rezar. Depois eu me comprometo mais.” E, enquanto esperamos o momento ideal, a vida vai passando. Por isso São Francisco nos provoca: comece hoje. Não quando tudo estiver resolvido, não quando as condições forem perfeitas, mas com aquilo que você tem e com a graça que Deus lhe oferece agora.
No Evangelho, Jesus anuncia aos discípulos que será entregue nas mãos dos homens, mas eles não compreendem suas palavras e têm medo de perguntar. Também nós nem sempre compreendemos aquilo que Deus está fazendo. Às vezes temos medo de perguntar o que precisa mudar, o que precisa morrer e o que precisa nascer de novo. Talvez este Capítulo não precise nos dar todas as respostas, mas precisa nos ajudar a fazer as perguntas certas: O que o Espírito Santo está pedindo hoje à nossa Ordem? O que precisa ser renovado? O que precisamos recuperar? O que precisamos deixar para trás? O que precisa começar?
Porque começar, para São Francisco, não significa simplesmente fazer mais coisas. Não se trata de produzir mais, organizar mais ou ocupar mais espaços. Podemos fazer muitas coisas e perder o essencial. Começar é voltar ao Evangelho, voltar a Cristo, voltar à fraternidade, à simplicidade, à oração, à alegria e à missão. Por isso, talvez a pergunta deste Capítulo não seja apenas: “O que ainda precisamos fazer?”, mas também: “O que precisamos recuperar?” O que precisamos recuperar da nossa vocação? Da nossa fraternidade? Da nossa capacidade de escutar? Da nossa presença junto aos pobres? Da coragem de viver o Evangelho com simplicidade e liberdade?
Celebrar os 800 anos da morte de Francisco traz também um desafio: não transformar Francisco apenas em memória. Francisco não precisa somente ser lembrado; Francisco precisa continuar acontecendo. E ele continuará acontecendo quando homens e mulheres tiverem coragem de viver o Evangelho no seu próprio tempo. Quando alguém puder dizer: “Minha fraternidade precisa de renovação, e eu vou começar. Minha oração esfriou, e eu vou começar. Eu me acomodei, e eu vou começar. Preciso reconciliar-me, e eu vou começar.” O franciscanismo não vive apenas daquilo que Francisco fez há 800 anos. Ele vive daquilo que nós fazemos hoje com o Evangelho que ele nos ensinou a viver.
E há algo ainda mais profundo no lema: “até agora pouco ou nada fizemos.” Isso não significa negar tudo o que foi realizado. Não significa desprezar a história da nossa Ordem ou o trabalho generoso de tantos irmãos e irmãs. Significa reconhecer que, diante da grandeza do Evangelho, nunca podemos considerar que já chegamos. A conversão nunca está concluída, a fraternidade nunca está pronta e a missão nunca termina. Enquanto houver vida, haverá possibilidade de recomeço.
E aqui podemos lembrar as muitas mortes que São Francisco precisou viver ao longo do caminho. Ele precisou morrer para uma identidade antiga, para a segurança das riquezas, para determinadas ambições e para aquilo que já não correspondia ao Evangelho. Essas mortes foram abrindo espaço para uma vida nova. Talvez seja por isso que, no final, ele pudesse dizer: “Comecemos.” Quem aprende a morrer para aquilo que já não conduz ao Evangelho aprende também a começar de novo. Talvez este Capítulo nos pergunte quais são as mortes que precisamos viver hoje: algumas maneiras antigas de pensar, algumas estruturas, algumas resistências, ressentimentos ou comodidades que impedem a novidade do Espírito.
Por isso, irmãos e irmãs, que este Capítulo não termine quando terminar esta assembleia. Que ele continue nas nossas fraternidades, na nossa oração, nas nossas decisões e, principalmente, na maneira como nos relacionamos uns com os outros. Talvez cada um precise sair daqui levando uma palavra: começar. Começar uma reconciliação, começar uma nova maneira de servir, começar uma nova maneira de escutar, começar novamente a rezar, começar novamente a acreditar e começar novamente a amar.
E tudo isso colocamos agora sobre o altar, porque não começamos sozinhos. É Cristo quem nos reúne, alimenta e envia. Na Eucaristia, Ele nos mostra que o caminho do Evangelho é o caminho da entrega. Por isso, ao celebrarmos os 800 anos da morte de Francisco, podemos pedir: “Senhor, faze-nos começar novamente.” Começar por Cristo, pelo Evangelho, pela fraternidade, pelos pobres, pela reconciliação, pela simplicidade e por aquilo que realmente importa.
Que cada irmão e cada irmã possa voltar para sua fraternidade com esta oração no coração: “Senhor, depois de tudo o que já vivi e de tudo o que já fiz, dá-me a graça de começar novamente.” Porque, enquanto houver Evangelho a viver, irmãos a amar, pobres a acolher, feridas a cuidar e pessoas que ainda precisam encontrar Cristo, ainda é tempo de começar.
Comecemos, porque até agora pouco temos feito. Amém
Homilia – Capítulo Regional da OFS – 27/09/2026
Regional sulI PR


