Quarta, 17 Setembro 2014 22:14

"As chagas do Amado"- O amigo se encontra com o Amigo

Leituras próprias:

Gálatas 6, 14-18;  Lucas 9,23-26

 Neste dia da Festa das Chagas de São Francisco queremos refletir sobre esse tema tão caro aos franciscanos. O texto que segue  foi fortemente inspirado em Par excès d’amour, Les stigmates de François d’Assise, de Bernard  Foerthomme, OFM, publicado pelas  Editions Franciscaines, Paris,  2004.

AS CHAGAS DO AMADO

O amigo se encontra com o Amigo

 Trago no meu corpo as marcas de Jesus (Gl  6, 14-18)

          Por ocasião da morte de Francisco de Assis (1226), os frades descobriram em suas mãos, seus pés e no seu lado marcas semelhantes àquelas que na época  figuravam nas representações de Jesus crucificado.  Alguns frades pressentiram que estava acontecendo algo de estranho e de novo, mas se calaram. Sinais inauditos, indizíveis! Esses sinais misteriosos, que apareceram no final de sua vida, foram interpretados como sendo os estigmas de Jesus.

Será que uma reflexão sobre os estigmas de Francisco pode interessar às pessoas de nosso tempo?  Os estigmas do corpo estigmatizado de Francisco devem ser olhados, basicamente, na contemplação e na fé,  como pontos fortes de experiência espiritual, aquele que viveu Poverello.

O caminho de santidade de Francisco passa pelo seu coração  feito de carne e de sangue.   As etapas de sua caminhada de seguidor de Cristo se  concretizam em episódios que revelam sua conversão interior:  o beijo  no leproso, a reconstrução das capelas em ruínas, o desprendimento dos bens, o esmolar do pão, a celebração do Natal em Greccio. Com suas próprias mãos lava as chagas do leproso que nem o próprio odor suporta.  Francisco  lava e faz dos homens irmãos seus, principalmente os menores, os que são marginalizados pela sociedade. O Poverello os atinge na caminhada de suas vidas. Convida explicitamente todos os homens, não somente seus frades ou os religiosos, a levar Jesus Cristo em seu coração e em seu corpo  fazendo com que ele se tornasse presente mundo por meio de atos luminosos.

“Estigma” é palavra pouco usada no cotidiano da fala e da escrita.  Vem do grego e quer dizer mancha, marca no corpo, tatuagem. O termo é usado por São Paulo: “Trago em meu corpo as marcas de Cristo”.

No momento da morte, os irmãos de Francisco  descobrem em seu corpo certos sinais . Em 1226, Frei  Elias,  Ministro  Geral da Ordem, publica uma  Carta  Encíclica  sobre a  morte de São  Francisco:  “Anuncio-vos uma  grande alegria e a novidade de um milagre. Nunca se ouviu falar no  mundo de tal sinal, a não ser o que se realizou no Filho de Deus que é o Cristo  Senhor. Pouco antes de morte nosso irmão e pai apareceu crucificado,  trazendo em seu corpo as cinco chagas que são verdadeiramente os estigmas de Cristo. Suas mãos e pés tinham como que perfurações de cravos, traspassadas de ambas as partes conservando as cicatrizes e deixando  ver o negrume dos cravos. Seu lado apareceu traspassado por uma lança e muitas vezes fazia jorrar sangue”.

Tomás de Celano, alguns anos mais tarde,  em 1228-1229  escreveu uma primeira biografia de Francisco de Assis. Faz o relato da cena da descoberta pelos frades das marcas no corpo de Francisco: “Suas mãos e seus pés pareciam atravessados bem no meio pelos cravos, aparecendo as cabeças no interior das mãos e em cima dos pés, com as pontas saindo do outro lado de foram, deixando ver um pedaço de carne como se fossem pontas de cravos entortadas e rebatidas saindo para fora da carne. Também nos pés estavam marcados os sinais dos cravos, sobressaídos da carne. O lado direito parecia atravessado por uma lança, com uma cicatriz fechada que muitas vezes soltava sangue e suas calças muitas vezes estavam  banhadas no sagrado sangue” (1Cel  95).

Celano, falando da morte, continua: “A tristeza era temperada pelo gozo inaudito e a novidade do milagre os enchera de assombro (…)  Resplandecendo esta admirável beleza diante de todos  os que assistiam e como sua carne tivesse ficado mais alva, era admirável ver em  suas mãos e pés não as feridas dos cravos  mas os próprios cravos, formados por sua carne, com a cor escura do ferro e o seu lado direito rubro de sangue.  Os sinais do martírio  não incutiam horror nos que olhavam, mas emprestavam muita beleza e graça, como pedrinhas pretas num pavimento branco”  (1Cel  112-113).

Não se trata de querer buscar imediatamente uma explicação  religiosa ou racional  para os estigmas. Não se pode, porém, passar ao lado do sinal. Francisco é diferente de outros estigmatizados da história que vieram depois dele. O Pobrezinho procura guardar segredo a respeito do que lhe adveio. Somente uns poucos íntimos estiveram a par do acontecido.  Acidentalmente descobriram o ocorrido. No caso de outros estigmatizados  multidões acorrem para ver as santas feridas. No caso de Francisco somente depois de sua morte se fala de suas chagas. Os estigmas apareceram no final de sua vida. No caso de Francisco trata-se apenas de sangue. Tomás de Celano fala de marcas… como pedrinhas pretas  num pavimento branco.

Não se pode ignorar em todo esse contexto a figura do Serafim de que fala  Tomás de Celano  em sua  primeira  Vida, dois ou três anos depois da morte de Francisco.   Francisco… “teve uma visão de Deus em que viu um homem, com aparência de Serafim de seis asas que pairou acima dele com os braços abertos e os pés juntos, pregado numa cruz… Sentia um  prazer e uma alegria enorme  por ver que o Serafim olhava para ele  com bondoso e afável respeito. Sua beleza era indizível, mas o fato de estar pregado na cruz e a crueldade de sua paixão  atormentavam-no totalmente.  Ele se levantou triste e ao mesmo tempo alegre  (…).Tentava descobrir o significado da visão e seu espírito estava muito ansioso (…) quando em suas mãos começaram a aparecer assim como as vira pouco antes no homem crucificado, as marcas dos quatro cravos” (1Cel  94).

A figura do serafim (em hebraico ser ardente, que queima)  é  curiosa e ambivalente: ao mesmo tempo anjo, homem e animal. Não se trata de um homem do qual sai sangue nem é Jesus nas representações  costumeiras do Redentor.

Francisco é um homem novo. Não se pode falar dos sinais que marcaram o corpo de  Francisco  sem nos situar no contexto do século XIII.  Antes da “novidade”  dos estigmas,  há o homem novo que é Francisco.  Os estigmas não se explicam sem a santidade de vida do estigmatizado.

Num mundo envelhecido, deprimido, dobrado sobre si mesmo, sobre si mesmo, com as propriedades imensas, privilégios de sangue, de sexo, de classe e de religião surge um homem que restaura as paredes de uma igreja que está em ruína.  Dever-se-á levar em consideração:

 • mudança da concepção de santidade no tempo de Francisco;

• profunda mudança da imagem do corpo;

• experiência profunda feita por Francisco junto do corpo do leproso e no convite para restaurar a igreja.

Quando começou-se a falar dos estigmas de  Francisco alguns bispos tiveram dificuldade de aceitar o fato por  ter acontecido com este leigo.  Santo designava o cargo:  santo rei, santo bispo, santo a       bade, santo monge num mosteiro.  Era um escândalo  pretender que ele, esse simples leigo,  tivesse recebido as chagas!  Era impensável colocar Francisco no altar ao lado de Agostinho,  Bento ou Norberto.

Antes de Francisco não se tem notícia de pessoas que tivessem os estigmas e o corpo não gozava de muito prestígio. Não se demonstrava muita consideração  para o corpo sacramental de Cristo na Eucaristia. A  Festa de Corpus Christi  não existia antes de 1264.  As hóstias consagradas não eram objeto de especial atenção.  Na quinta-feira santa se falava  mais da traição de Judas do que do Corpo de Cristo.  Os  fieis se precipitam em massa  para venerar as relíquias sem fazer sequer uma inclinação  diante do tabernáculo, palavra que foi introduzida no tempo  do nascimento de Francisco.

Pouco antes de se dirigir para o Monte Alverne onde receberia os estigmas  ele quer  “ver, ouvir e tocar o Verbo de Deuis”  (1Jo1).  Pede que se faça um presépio vivo. Praticamente é ele que inventa esse modo de se festejar o Natal.  Não basta apenas a Palavra de Deus no seio da celebração.  A palavra se fez carne  em Francisco  seu corpo fala, fala do amor de Deus.

A experiência do corpo se manifesta também no papel representando pelos leprosos na vida de Francisco, seres marginais da sociedade. Ele experimenta repugnância para com essas pessoas até quando o Senhor o conduz até esses que carregam o estigma da lepra. Trata-os com suas próprias mãos. Sempre de novo o corpo.

Assim fazendo Francisco se marginaliza, coloca-se à margem da sociedade. Unindo-se aos leprosos, cegos e paralíticos, pessoas incapazes de ganhar a vida, o Poverello se estigmatiza socialmente. Francisco é estigmatizável antes de ser estigmatizado.

A figura do Serafim merece algumas considerações. O serafim não é nem Jesus, nem o Cristo, mas uma figura bíblica.

“Vi  o Senhor sentado num trono elevado (…).  Serafins estavam de pé acima dele, cada um tinha seis asas”  (Is 6, 1-2).

“No centro  aparecia a forma de quatro seres vivos. Este era o seu aspecto: tinham forma humana  (…)  Por baixo das asas tinham mãos humanas nos quatro lados (…)  No meio desses seres  vivos aparecia algo como brasas; pareciam tochas acesas faiscando entre os seres vivos. O fogo cintilava e no meio do fogo  saíam relâmpagos. Os seres vivos  coriscavam, parecendo raios”  (Ez  1, 5-14).

Serafim quer dizer ardente, o que queima.  Deus se manifesta na brisa suave mas  também nas    trovoadas e nos relâmpagos,  na misteriosa força da tempestade.  Esta é a majestade  chamejante do Senhor do universo.

“É a majestade de um  Senhor presente a mim,  cheio de falhas, mesmo assim escolhido para dele dar testemunho, a mim, a Moisés, a Francisco, frade menor.  É esta chama, este zelo de Deus que se manifesta  a Francisco no monte Alverne  É o  Deus do capítulo 23  da Regra não bulada.  O que se apresenta como novidade com relação aos serafins de que fala Isaías  são os sinais da crucifixão,  do sofrimento no coração de uma eternidade resplandecente.  Em Francisco há o assombro diante do sacrado  e ao mesmo tempo uma reação amorosa diante de um tal sofrimento.

Interessante observar  as metáforas  “feminisantes” nos escritos e biografia de São Francisco:

• Na Legenda dos Três Companheiros encontramos uma curiosa parábola que coloca em cena uma mulher pobre e bela, casada com um grande rei. Numerosos filhos nascem desta união. O pai os reconhece. Diz o texto: “ Francisco compreendeu que ele era a mulher pobre da qual o Senhor quis ter filhos (LTC 50). No mesmo livro Francisco fala de uma outra visão: ele vê uma galinha de penas escuras. Tem muitos pintinhos que não consegue cobrir com suas asas. Quando acorda diz: “Esta galinha sou eu… o Senhor me deu e me dará muitos filhos” (LTC 63).

• Na Regra dos Eremitérios Francisco usa a metáfora das mães e dos filhos. Em cada eremitério os frades serão três ou quatro; dois serão mães e cuidarão dos filhos ou ao menos de um; em forma de rodizio os filhos assumirão o papel de mães, assumindo os serviços do eremitério em favor dos frades entregues à contemplação.

• Na Carta a todos os fiéis convida seus frades e todos homens e mulheres a serem mães de Cristo. “Somos seus irmãos (de nosso Senhor Jesus Cristo) quando fazemos a vontade do Pai que está nos céus; somos mães quando o trazemos em nossos coração e nosso corpo (cf. 1Cor 6,20), através do amor e consciência pura e sincera; damo-lo à luz por santas obras que devem brilhar como exemplo para os oturas” (2ª. versão, 51-53).

• Francisco nos convida a trazer Jesus Cristo em nosso coração e em nosso corpo, a dá-lo à luz ao mundo por atos luminosos. A encenação do presépio de Greccio pode ser explicada nesta perspectiva: participar pessoalmente do nascimento da Palavra de Vida. Cada um é convidado a “gerar” cada dia o Cristo, como Maria o gerou. Essa aproximação da vocação de cada um à vocação de Maria precisa ser colocada no centro da reflexão sobre a estigmatização. Não se pode pretender participar dos sofrimentos do crucificado se antes não se participou nitidamente de seu nascimento no coração e no corpo ( em nosso corpo diz literalmente o texto).

Apresentação  dos estigmas  na tradição  mística:

o    João da Cruz:  “A operação  do  Serafim  faz uma ferida  interior,  no espírito.  Por vezes  Deus permite  que seus efeitos se produzam  por fora e afetem os sentidos corporais  de acordo com a ferida interior.  Destarte  ferida e chaga aparecem exteriormente.

Os estigmas , sinais do desejo de privação de posse, despojamento:

o    Quem tem as mãos estigmatizadas não pode mais  apropriar-se como antes.

o    Aqueles cujos pés estão  estigmatizados  não pode mais caminhar como conquistador e dominador.

o    Aquele cujo lado é tocado  não pode mais  fechar em sua caixa toráxica, nem ressentimentos e  nem remorsos amargos.  O pássaro da liberdade  encontra a porta aberta para lançar livremente  pelos espaços.

“Para o homem que assim se reconhece, até mesmo em sua carne, diferente de um proprietário,  os bens se redistribuem e a própria natureza reencontra em esplendor inédito  sua fraternidade originária como o ardor divino que a provoca.

Os estigmas  constituem uma forma de pregação

“Os  estigmas constituem uma pregação  quando os lábios emudecem.  Os  estigmas  constituem uma casa para a palavra do silêncio, aquela que se submete a todas as criaturas  para melhor ser compreendida.

Os estigmas  são os lábios e as pálpebras  da carne que revelam e  contemplam as profundezas  do momento em que todas as coisas se calam, onde o meio ambiente manda calar e fechar os olhos  onde reina cegamento e não somente a cegueira

 

Quando o contencioso  com os irmãos  torna-se intenso, a tal ponto que o destino da Fraternidade franciscana parece incerto,  quando o Evangelho corre o risco de ser utopia ou  nada mais que um grande sonho, então  Francisco, o homem novo, resolve subir a montanha do Alverne  e ali viver densa  solidão. No mistério da misteriosa troca acontece o encontro do só com o só, a partilha de sofrimento do amigo com o Amigo.  Nada mais podemos dizer, mas simplesmente meditar em nosso coração”.

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