Quinta, 11 Abril 2019 14:05

OFS e o Espelho da perfeição: reflexão sobre o capítulo 3

ESPELHO DE PERFEIÇÃO

 

CAPÍTULO III 

Como S. Francisco respondeu ao ministro que queria ter livros com a sua permissão e como os ministros, sem ele saber, fizeram suprimir da Regra o capítulo sobre as proibições do Evangelho

1 Um dia, depois de S. Francisco ter regressado da sua viagem ao Oriente, um ministro, que se entretinha a falar com ele sobre a pobreza, quis conhecer nesta matéria o pensamento e a vontade do Fundador, 2 tanto mais que então a Regra continha um capítulo sobre as proibições do Santo Evangelho: «Não leveis nada para o caminho», etc.

3 Respondeu-lhe S. Francisco: «Eu penso que os frades nada mais devem possuir do que o hábito com o cordão e os panos menores, como está mandado na Regra. Mas aqueles que se virem compelidos pela necessidade poderão usar calçado». 4 Tornou-lhe o ministro: «Que hei-de fazer então se tenho livros, cujo valor ultrapassa 50 libras?» Falou assim, porque o que ele desejava era possuí-los de consciência tranquila, pois não ignorava que S. Francisco interpretava com rigor o capítulo da pobreza. 5 Replicou-lhe o Santo: «Não quero, nem devo, nem posso ir contra a minha consciência nem contra a perfeição do Santo Evangelho, que nos comprometemos a observar». 6 Ouvindo esta resposta, o ministro ficou triste. S. Francisco, notando a sua perturbação, disse-lhe o que desejaria dizer a todos os frades: «Vós quereis passar por Frades Menores aos olhos dos homens e ser tidos na conta de observantes do Santo Evangelho. Porém, ao mesmo tempo, tudo fazeis para possuir bolsas bem recheadas». 7 Na verdade, ainda que os ministros soubessem que a Regra os obrigava a observar o Santo Evangelho, mandaram suprimir da mesma aquele capítulo em que se lê: «Não leveis nada para o caminho», etc., julgando que não estavam obrigados a observar a perfeição do Evangelho. 8 Quando S. Francisco, por inspiração divina, tomou disto conhecimento, disse na presença de alguns frades: «Os irmãos ministros pensam enganar-nos, a Deus e a mim. Mas, para que os frades saibam que estão obrigados a observar o Santo Evangelho, quero que no princípio e no fim da Regra venha exarado que os frades têm a obrigação de observar firmemente o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. 9 E, para que os frades não tenham jamais desculpa, desde que lhes anunciei e anuncio o que o Senhor se dignou pôr nos meus lábios para minha salvação e deles, quero cumprir estas prescrições na presença de Deus e com a Sua ajuda». 10 Assim foi na verdade, pois observou o Santo Evangelho integralmente, desde o dia em que começou a reunir frades até ao dia da sua morte.

 

REFLEXÃO:

Continuando nossas reflexões, vemos o que para Francisco é fundamental e é a chave de leitura de todos os franciscanos, incluindo a nós franciscanos seculares: “quero que no princípio e no fim da Regra venha exarado que os frades têm a obrigação de observar firmemente o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Temos que compreender isso de forma integral!

Então vamos destrinchar mais este capítulo, o terceiro do Espelho da Perfeição. Primeiro, no Prólogo, um grupo de ministros vai até Elias para demover Francisco de sua ideia de pobreza radical. Depois é a vez de um intelectual tentar modificar seus pensamentos. Agora parece-nos ser um misto dos dois anteriores. Um ministro intelectual.

Vemos que neste capítulo e no anterior, a necessidade de estudar, uma imposição que a Igreja fazia para a vida religiosa, serve de mote para contestar a pobreza. Aqui, um frade o questiona e Francisco começa informando, assim como antes, que os frades deveriam ter um hábito com cordão e uns panos menores. Porém, abre uma exceção, autorizando o uso de um calçado.

O ministro lança uma pergunta sobre a posse de livros. Trata-se de uma armadilha. Se Francisco se coloca contra os estudos estará contra a Igreja. Demonstra também a transformação que a instituição havia passado ao acolher uma grande quantidade de sacerdotes e intelectuais. E apresenta também um problema: estes livros, assim como as ferramentas que o fundador autorizava aos frades, eram instrumentos de trabalho.

O Irmão de Assis não lança uma proibição direta. Afirma, na verdade, a necessidade de observar o Evangelho. Com este chamamento ele quer que os frades tenham a experiência de Cristo como base. Porém eles não entenderam. Muitos se perturbaram, criaram celeumas e, por fim, modificaram a Regra. Segundo o Poverello, todos que inicialmente queriam ser frades menores, aceitavam tudo, mas, posteriormente, mesmo que exteriormente tivessem a figura de observantes do Evangelho, acabavam tendo como um de seus principais objetivos os bens materiais.

E em nossas fraternidades seculares, será que não agimos assim? Fazemos o período de formação, aceitamos a “regra do jogo” e depois passamos a buscar coisas que nada tem a ver com o que professamos?

O texto hagiográfico informa que todos sabiam que o principal era seguir o Evangelho. Mas, mesmo assim, optaram em suprimir a parte da Regra que dizia: “Não leveis nada para o caminho”.

Diante disso, mais uma vez, ele clama pela autoridade de Cristo. Segundo o texto, o que Francisco admoestava era ordenado por Deus. Ele era apenas um alto-falante. Replicava os preceitos que Jesus queria que os frades vivessem. Agora, se os irmãos não o quisessem, ele viveria individualmente, como os outros textos afirmaram anteriormente. Apesar de sua grande paixão pela vida fraterna, o fundador sinaliza que, mesmo que a fraternidade não queira, temos que viver o que professamos.

Para nossas fraternidades seculares, este texto deixa um grande ensinamento. Nossos ministros, não podem ser como estes que o texto trata. Estes buscavam fazer sempre o contrário do que é proposto pelo Evangelho, ou seja, pelo próprio Cristo. Não escutavam a voz de Francisco. Foram contra a Regra. Tentaram modificá-la para “amaciar” a forma de vida.

Cristo é nosso exemplo de humildade. Ele se humilhou para nos salvar! Porém, mesmo assim, nós não queremos buscar a humildade. Se os irmãos, principalmente as lideranças, buscam viver o fausto, a riqueza, o luxo, levar vantagem nas negociações, infelizmente abandonaram o que é o importante, o seguimento do Evangelho.

Segundo Raniero Cantalamessa, no livro Obediência:

(…) A obediência de Jesus consistia em fazer a vontade do Pai, Cristo é já, mesmo como homem, a personificação mesma da vontade do Pai. Sua vida e sua palavra são a forma concreta que para nós assumiu a atual vontade de Deus. (…) Obedecendo ao Pai, Cristo tornou-se causa de salvação para aqueles que agora o obedecem! A vontade de Jesus é a mesma vontade do Pai. Obedecer a Cristo não é obedecer a um intermediário, mas ao mesmo Deus. A obediência ao Evangelho é a nova forma assumida pela obediência a Deus com o advento da Nova Aliança.

Franciscanos seculares que somos, mesmo parecendo sermos observantes do Evangelho, não podemos ter como fim último de nossas vidas os bens materiais. Trabalhar de sol a sol para conseguir aumentar nossa riqueza e abandonar a vida em família e em fraternidade em nome do poder, que vem com o dinheiro, são ilusões que não combinam com a vida franciscana. Obedecer ao Senhor, como diz Cantalamessa, é obedecer ao Evangelho. Não nos preocupemos então em abarrotar os celeiros. Nos preocupemos em viver o Amor.

Não podemos, assim como o ministro do texto, criar situações, com o intuito de modificar as bases de nosso carisma. As fraternidades devem trilhar os caminhos de Jesus, que foram pregados e vividos por Francisco.

Por fim, assim como no outro texto, a vivência dos elemento da vida franciscana secular são responsabilidade de todos. Seja em fraternidade ou individualmente, professamos esta vivência do Evangelho.

Um outro ensinamento que podemos tirar deste texto é a necessidade de obediência aos desejos de Deus. Francisco tinha a pobreza como fundamental, pois captou, no Evangelho, o quão importante ela foi no ministério de Cristo. Sua obediência a Ele passa pela fiel observância dos ditames do Senhor. A pobreza é a essência do Cristianismo.

 

QUESTIONAMENTOS:

Será que nossas fraternidades da OFS têm sido obedientes ao chamado de Cristo?

Como tem sido o serviço dos irmãos que assumem funções? Eles têm buscado a obediência ao Evangelho ou usam seus serviços de forma equivocada?

E nós (eu) tenho sido um irmãos coerente com minha profissão? Tenho buscado servir bem minha fraternidade?

 

Texto de Jefferson Eduardo dos Santos Machado – Coordenador de Formação da Fraternidade Nossa Senhora Aparecida – Nilópolis (RJ)

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