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Crucifixo de São Damião
O Crucifixo de
São Damião foi pintado no século XII por um desconhecido artista da
Úmbria, região da Itália.
A pintura é de estilo romântico, sob clara influência oriental: o
pedestal sobre o qual estão os pés de Cristo pregados separadamente; e
de influência siríaca: a barba de Cristo; a face circundada pelo
emoldurado dos cabelos; a presença dos anjos e cruz com a longa haste
segurada na mão, por Cristo (só visível na pintura original), no alto,
encimando a cruz.
O Crucifixo original de São Damião está guardado com grande zelo
pelas irmãs Clarissas, na Basílica de Santa Clara de Assis, e é visitado
por estudiosos, devotos e turistas do mundo todo. É um monumento
histórico franciscano e universal.
Outros
dados Sem o pedestal, o Crucifixo original mede
dois metros e dez centímetros de altura e um metro e trinta centímetros
de largura.A pintura foi feita em tela tosca, colada sobre
madeira de nogueira.Naquele tempo, nas pequenas igrejas, o Santíssimo não era
conservado, isto é, a Eucaristia não era guardada mas, consumida no dia.
Por isso, supõe-se que Crucifixo foi pendurado no ábside sobre o altar
da capela, no centro da Igreja.
Provavelmente o Crucifixo permaneceu na Igreja de
São Damião até que as Irmãs Pobres, em 1257, o levaram consigo à nova
Basílica de Santa Clara. Guardaram-no no interior do coro monástico por
diversos séculos. No ano de 1938, a artista Rosária Alliano restaurou o
Crucifixo com grande perícia, protegendo-o inclusive contra qualquer
deterioração.
Desde 1958 ele está sobre o altar, ao lado da capela do
Santíssimo, na Basílica de Santa Clara, protegido por
vidro.
Descrição detalhada da
pintura Descobre-se, à primeira vista, a figura central do Cristo, que
domina o quadro pela sua imponente dimensão e pela luz que sua
esplêndida e branca figura difunde sobre todas as pessoas que o
circundam e que estão todas vivamente voltadas para Ele. Esta luz
vivificante que brota do interior de sua Pessoa (Jo, 8,12) fica ainda
mais destacada pelas fortes cores, especialmente o vermelho e o
preto.
Também
impressiona este Cristo ereto sobre a cruz e não pendurado nela, com os
olhos abertos, olhando o mundo.
Apresenta ainda uma auréola de glória com a cruz
triunfante oriental em vez de uma coroa de espinhos, porque tornou-se
vitorioso na paixão e na morte.
Aparecem os sinais de crucificação e as feridas
sangrentas mas o sangue redentor se derrama sobre os anjos e santos
(sangue das mãos e dos pés) e sobre São João (sangue do lado
direito).
Cristo
se apresenta vivo, ressuscitado (Jo 12,32), de pé sobre o sepulcro vazio
e aberto (indicado pela cor preta), visível por trás. Com as mãos
estendidas, Cristo está para subir ao céu (Jo
12,32).
A
inscrição acima da cabeça de Cristo, "Jesus Nazarenus Rex Judaeorum"
Jesus Nazareno Rei dos Judeus é também própria do Evangelho de
João.
Sobre a
inscrição, está a ascensão em forma dinâmica, na figura do Cristo
ascendente, com o troféu da cruz gloriosa na mão esquerda (só visível na
pintura original) e com a mão direita para a mão do Pai, no céu.
Do alto, a mão
direita do Pai acolhe o seu Filho, circundado dos anjos (e santos) na
glória celeste.
As cores vermelha e púrpura são símbolos do divino; o verde e o
azul, do terrestre. Para "ver" bem o conjunto da pintura, deve-se
realmente parar diante do Crucifixo pois, ordinariamente, olha-se a
imagem somente, de longe, como "turistas".
À direita do corpo de Cristo, aparecem
as figuras de Maria e João, intimamente unidas, enquanto Maria indica o
discípulo predileto com a mão direita (Jo 19,26). À esquerda, estão as
duas mulheres, Maria Madalena e Maria de Cléofas, primeiras testemunhas
da ressurreição (Jo 19,25).
E, embora Maria, à direita e Maria Madalena, à
esquerda, ergam a mão direita no rosto em sinal de dor, nenhuma das
outras pessoas próximas, manifesta expressão de sofrimento profundo mas
uma adesão cheia de fé ao Cristo vitorioso,
Salvador.
À
direita das duas mulheres vê-se o centurião com a mão erguida, olhando
para o Crucifixo. Com esse gesto está a dizer: "Verdadeiramente este é o
Filho de Deus".
Sobre os ombros do centurião aparece a cabeça de uma pessoa em
miniatura, cuja identidade se discute: poderia ser o filho do centurião,
curado por Jesus (Jo 4,50) ou um representante da multidão ou ainda, o
autor desconhecido da pintura.
Aos pés de Maria e do centurião, vê-se o soldado
chamado Longino que, pela tradição, com a lança traspassa o lado de
Jesus e, o portador da esponja, chamado de Estepatão, segundo a tradição
(Jo 19,29). Ambos estão voltados para o Crucifixo.
Debaixo das mãos de Jesus, à direita e
à esquerda, encontram-se dois anjos com as mãos erguidas, em intenso
colóquio. Parecem anunciar a ressurreição e ascensão do
Senhor.
As duas
pessoas, à extrema direita e esquerda, parecem anjos ou talvez mulheres
que acorrem ao sepulcro vazio.
Aos pés de Jesus a pintura original encontra-se
muito deteriorada. É provável que seja: São Damião, São Rufino, São João
Batista, São Pedro e São Paulo. Acima da cabeça de São Pedro, está a
figura do galo (só visível na pintura original), a lembrar a negação de
Pedro a Cristo (Jo 13,38; 18, 15-27).
As pessoas aos pés de Jesus têm a cabeça erguida
para o alto, expressando a espera do retorno glorioso do Senhor, no
juízo.
Deste
Crucifixo descrito em detalhes, Francisco teve uma inspiração "decisiva"
para a sua vida, diz Caetano Esser. Passamos a descrevê-la porque é
deste fato que se originou a admiração que hoje temos ao Crucifixo de
São Damião.
O Crucifixo fala a
Francisco O jovem Francisco encontrava-se numa crise espiritual, cheio de
dúvidas e trevas. "Conduzido pelo Espírito", entra na igrejinha de São
Damião, onde se prostra, súplice, diante do Crucifixo. Tocado de modo
extraordinário pela graça divina, encontra-se totalmente transformado. É
então que a imagem de Cristo Crucificado lhe fala: "Francisco, vai e
repara minha casa que está em ruína".
Francisco fica cheio de admiração e "quase perde os
sentidos diante destas palavras". Mas logo se dispõe a cumprir esse
"mandato" e se entrega todo à obra, reconstruindo a igrejinha. Depois
pede a um sacerdote, dando-lhe dinheiro, que providencie óleo e
lamparina para que a imagem do Crucifixo não fique privada de luz, mas
em destaque naquele santuário.A partir de então, nunca se esqueceu de cuidar
daquela igrejinha e daquela imagem.
Francisco parecia intimamente ferido de amor para o
Cristo Crucificado, participando da paixão do Senhor, de quem já trazia
os estigmas no coração e mais tarde, em 1224, receberia as chagas do
Cristo em seu próprio corpo.Segundo Santa Clara, está visão do Crucifixo foi um
êxtase de amor radiante e impulso decisivo para a conversão de
Francisco.
Entre
os estudiosos ainda existe uma dúvida a ser esclarecida: ao ouvir o
Cristo do Crucifixo, Francisco pensa na igrejinha material de São
Damião. Mas nada impede de se pensar que se trata do "templo de Cristo
no coração de Francisco e nos corações dos homens".
Enfim, a própria oração de Francisco diante do
Crucifixo de São Damião sugere antes a reparação "espiritual" da casa do
Senhor, crucificado no coração.Tanto que ele pede especialmente pelas
três virtudes teologais (fé, esperança e amor) para poder cumprir esse
"mandato" de Cristo.
Por Frei Vitório
Mazzuco
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