Terça, 21 Janeiro 2014 19:17

OS VELHOS...

NOVEMBRO/2013

 

Jacques Brel foi um dos conhecidos chansoniers da música francesa. Suas letras são cheias de graça, brilho, paixão, verdade, fúria, ironia, sensualidade. Esta crônica sobre as pessoas idosas, sobre os velhos é uma tentativa de tradução do seu texto LesVieux.

OS VELHOS...

 

Os velhos não falam mais

ou então somente algumas vezes

com os olhos.

 

Mesmo ricos são pobres 

não têm mais ilusões

um vai se apoiando no outro.

 

Sua casa cheira a tomilho

a coisas limpas

a água de cloro e a livros de antigamente.

 

Mesmo vivendo na capital

vive-se sempre no interior

quando a vida é muito longa.

 

Talvez de tanto rir

sua voz ficou rachada

quando falam das coisas de ontem.

 

Quem sabe devido a tanto chorar

que as lágrimas ainda

escorrem  soltas  de suas pálpebras.

 

Se tremem um pouco

talvez seja de ver envelhecer

o pêndulo prateado.

 

Que soa na sala

que diz não e que diz sim

e também “eu te espero”.

 

Os velhos não sonham mais

seus livros estão adormecidos 

seu piano está fechado

o gatinho morreu

e o vinho de domingo

não faz com que cantem.

 

Os velhos não se movimentam mais

seus gestos estão cobertos de rugas 

e seu mundo é muito pequeno.

 

Da cama para a janela

da cama para a poltrona

e depois da cama para a cama.

 

 

Se eles saem ainda

de braços dados

vestidos  a rigor

é para acompanhar ao sol

o enterro de um mais velho,

o enterro de uma mais feia.

 

E o tempo de um soluço

esquecer por um tempo 

os ponteiros de prata.

que ecoa na sala

que diz sim e que diz não

e depois: espero-os.

 

Os velhos não morrem

um dia dormem

e dormem por muito tempo.

 

Agarram um a mão do outro 

com medo de se perderem

e mesmo assim se perdem. 

 

O outro continua aqui, o melhor ou pior, o doce ou o severo, pouco importa aquele que fica se encontra no inferno.

 

Vocês vão vê-lo

Vocês vão vê-la

Sob a chuva e tristes

 

Atravessar o presente desculpando-se de não estarem mais adiante.

 

E por uma última vez

Tentar escapar dos ponteiros prateados que soa na sala  que diz sim e diz não e também espero por você.

 

 

Composição de  Gérard Jouannest, Jacques BreilJena Corti

 

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