Terça, 21 Janeiro 2014 19:15

TODOS ESSES FORAM

OUTUBRO/2013

 

A Ordem Franciscana Secular conta como uma prioridade do Conselho Nacional batalhar pela família. Nesta crônica pensamos nos membros de nossas famílias e de nossas relações que já se foram. Muitos foram largando de nossas mãos.

 

TODOS ESSES FORAM

          largando de nossas mãos. Quantos parentes e amigos já se foram. Nos primeiros dias de novembro ocorre a comemoração dos finados. Dia 2 de novembro é dia de saudade e de gratidão. Ao longo de nossas vidas vamos nos despedindo de tantos até o que outros, um dia, se despedirão de nós.

         Aqueles dois se casaram meio tarde. A mulher não conseguia engravidar.  Depois de um sério tratamento foi bem sucedida no desejo de ser mãe. Uma gravidez normal, até certo ponto. Depois o casal ficou sabendo que a menininha que estava para nascer era anencefálica. Os dois recusaram o aborto. Levaram a gravidez até o fim. A menina nasceu recebeu o nome de Ana Luisa. Viveu menos de vinte e quatro horas. Fechou os olhos e se foi. Aquelas horas que viveu foram horas de carinho e também de aperto no fundo do coração.

          Aquela senhora já estava bem idosa. O coração começava a ficar fraquinho. Mas ela vivia.  Um belo dia caiu na hora do banho e quebrou o colo do fêmur e nunca mais andou. Vivia em cadeira de rodas, no cantinho do quarto, diante da janela que dava para o quintal, comendo pouco, rezando o que podia, esperando a hora da partida, a ordem que deveria vir do alto. Um dia a filha me contou o seguinte: “Cuidei sempre da mãe, da melhor maneira que pude... aos poucos percebi que seus dias estavam contados. Na véspera de sua morte, quando a ajeitava na cama, ela me olhou de maneira diferente. Havia um brilho viçoso em seu olhar misturado com duas lágrimas que corriam rosto abaixo. Quando tudo estava pronto e eu ia desligar a luz do quarto ela me apertou a mão e me olhou com a testa franzida. Naquela noite mesmo ela morreu. Aquele brilho, a testa franzida e as lágrimas eram a despedida. No dia seguinte, exausta de tanto sofrer, levei o corpo da mãe para o cemitério e hoje me resta a saudade”.

          Sim, finados dia de saudade e de esperança. Há pessoas que não podem ir ao cemitério e passar uns minutos de oração diante do tumulo de entes queridos. Eles morreram mas seus corpos não foram encontrados.  Uma mãe chora a morte de um filho que morreu na guerra e cujo corpo nunca foi reconhecido. Uma esposa lamenta o desaparecimento do marido que morreu na catástrofe do avião que caiu nas águas do Atlântico. Uma família chora o sumiço misterioso de seu filho sequestrado sem que nunca se tenha encontrado o paradeiro de seu corpo.

        Temos saudades daqueles que já se foram e que tanto amamos, esses que nos valorizaram, estimularam, perdoaram e nos ergueram quando estávamos caindo ou caídos. Guardamos a memória de seus gestos desinteressados, as palavras que nos dirigiram os olhares que cruzaram com nossos olhares. Suas palavras encorajadoras ou de perdão ressoam ainda no templo da nossa saudade. Hoje os defeitos daqueles que amamos nos parecem insignificantes diante da beleza de seus corações e do bem que fizeram por nós. Caminhando por onde eles andaram sentimos sua presença. Deixaram marcas profundas em nossas vidas. Por vezes, deparamos com sua lembrança nas salas e quartos onde vivemos, nos caminhos dos parques que juntos percorremos, no livro que um e outro havíamos lido, nas escolhas e decisões que juntos tomamos.  Todos eles se foram.

          Um dia acompanhamos o sepultamento desses entes queridos. Caminhamos atrás do seu caixão por entre uma passarela no meio de tantos túmulos. Por fim, ouvimos a terra sendo jogado no fundo da cova com uma melodia soturna.

          Neste dia dos finados pedimos ao Senhor da vida, ao Deus que não tem nem ontem, nem hoje, nem amanhã que acolha no fundo de seu coração todos esses que morreram e dos quais temos imensa saudade.

 

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

Ler 1751 vezes
© 2016 - Ordem Franciscana Secular do Brasil.
Rua Adro de São Francisco, s/n, Saúde,
Zona Portuária, Rio de Janeiro – RJ
CEP 20081-290 - Fone: 55 (21) 2240-4565
Email: ofsbr@terra.com.br