Terça, 21 Janeiro 2014 19:14

O HOMEM ESTAVA NO FUNDO DA IGREJA

Uma das prioridades de estudo e de reflexão das fraternidades franciscanas seculares é o tema da família.  A crônica do homem que estava no fundo da igreja, pode nos ajudar a refletir.

 

 O HOMEM ESTAVA NO FUNDO DA IGREJA

 

          Era hora da missa da manhã. Missa das 7h. Manhã de sol.  A imagem do Coração de Jesus, atrás do altar mor, estava banhada de uma luz branca e transparente.  Umas poucas pessoas se espalhavam pela igreja que não era muito grande. Quase todos os dias as mesmas pessoas.  A impressão que tenho é que as duas senhoras (ou senhoritas) que cantam durante a celebração, fazem esse “serviço” há muitos anos.  Sempre as mesmas.  Já estão para fazer bodas de prata. Há também um homem que vem sempre com a mulher. Vejo também uma mocinha ao lado dos dois.  Por vezes, vem também um rapaz que se coloca ao lado da mocinha. Disseram-me que se trata da filha do casal e de seu namorado. Esses quatro participam com muita densidade de presença. Coisa emocionante ver jovens, quase todos os dias, participando da missa.  Confesso que eles me ajudam a celebrar. Mas a finalidade destas linhas é tentar dizer alguma coisa, imaginar alguma coisa, inventar alguma coisa a respeito daquele que estava no fundo da igreja, que se colocara no último banco e tinha nos braços um menino de seus dois anos. Certamente seu filho. 

         Na verdade o homem era jovem. Estava vestido de calça marinho e camisa branca sem gravata. Para o trabalho usava terno e gravata com toda certeza. Voltando à casa para deixar o menino haveria de completar a indumentária. Agora vou dar largas à imaginação. Permitam-me, por favor. Ele veio a igreja pedir forças a Deus e trouxe o precioso tesouro de sua vida e de seu casamento que era esse menino. Estreitava-o junto do peito.  Por vezes se levantava e passeava com o menino no átrio do templo, quando ameaçava choramingar. Depois voltava, sentava-se novamente. Olhava pouco na direção do altar. Seu olhar estava fixo no menino. Talvez sua história poderia ser mais ou menos a seguinte que ele estaria contando ao menino: 

         “Gabriel, meu filho, meu tesouro. Aqui estamos na igreja do Sagrado. Vim aqui com você para pedir forças ao Senhor. Não sei se creio de fato em Deus. Mas preciso dele. Fiz muitos planos e sonhei tantas coisas. E nessa madrugada aconteceu o que eu estava mais ou menos prevendo. Sua mãe resolveu me dizer que não queria mais viver comigo. Nosso casamento não estava bom. Antes mesmo que você viesse ao mundo nós dois quase nos separamos. Não posso dizer que fui temerário. Eu e sua mãe nos conhecemos há muitos anos fomos colegas de faculdade, companheiros.  Parece que fomos nos acostumando um ao outro. Nosso casamento foi feito mais de amizade do que amor conjugal. Sim, na vida  acontece que a gente pensa, mas não pensa tanto quanto devia. Ontem à noite ficou decidido que vamos nos separar. Não houve briga, não houve discussão. Diria que as coisas foram acontecendo...Nunca deveríamos nos ter casado. Por vezes penso que nos unimos por causa de gratidão da amizade. Resolvemos agora  “dar um tempo”. Cada um vai ficar no seu canto. Quem sabe as coisas se aclarem. Vê, meu menino, que tenho os braços tremendo... Não é fácil passar esse momento. Hoje de manhã  pensei que deveria vir com você aqui. Pedir força?  Pedir luzes? Queria estar com você, aqui, na igreja do Sagrado. Meu menino, meu menino de cabelos bonitos e de olhar tão sereno...nunca haverei de larga-lo. Que o Senhor nos mostre um caminho para que não venhamos a nos arranhar...” 

         De repente, na hora da comunhão,o homem que estava no fundo da igreja se precipitou. Foi o último a comungar... E quando voltava para o banco apertava mais fortemente ainda o menino de encontro a seu peito.

 

 Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

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