Quinta, 05 Julho 2018 12:06

Saber celebrar… Saber festejar!

“Aquele que celebra não é impotente.
Torna-se um criador porque é um amante”

Gostamos de estar juntos. Gostamos de dançar juntos. Gostamos de fazer coisas bonitas e divertidas. Gostamos de rir daquilo que fizemos. Gostamos de pôr cores vivas nas paredes – e em nós mesmos. Gostamos de nossas pinturas que são malucas. A celebração é maluca: a maluquice de não nos submetermos, ainda que “eles”, os “outros”, aqueles que tornam a vida impossível, parecem ter todo o poder. A celebração é o começo da confiança, portanto do poder. 

(Thomas Merton, “Amor e Vida”, Martins Fontes, p. 56-57).

 

A festa faz parte da vida. Em todas as culturas e religiões sempre se deu lugar importante a esses dias, espaços, momentos em que quebra-se a mesmice do cotidiano, desligam-se as antenas dos compromissos pesados. Faz-se a memória dos feitos belos e grandiosos que marcaram nossas trajetórias pessoais e sociais. A festa tem a ver com um justo ócio, um merecido descanso. Na vida não basta apenas trabalhar. É preciso dormir até mais tarde, andar descalço dentro de casa, pisar descalço na grama abrir as janelas e contemplar as nuvens dançando nos espaços com olhos limpos, em êxtase. Não somos peças de uma máquina.

Nesses meses de junho e julho vivemos um clima de jubilosa alegria. Penso na atmosfera gerada pela Copa do Mundo de Futebol, na Rússia… Quem diria? A Rússia, país cheio de desejos de dominação, que amedrontava o mundo, está sendo palco de um espetáculo esfuziante. Os belos estádios, jogadores do mundo inteiro, festa, jogadores empenhados na busca do êxito. Êxito, fugaz é verdade. Teoricamente um mês de confraternização nas ruas, cidades e estádios. Cores das bandeiras dos países, sol e vida, originalidade dos uniformes dos jogadores. Em casa e nas ruas a televisão ligada o tempo todo com movimento dos torcedores nas arquibancadas… Nosso rosto anda descontraído.

Os petropolitanos, nesta mesma época, vivemos dias de festa, mais uma vez, com a passagem do dia do colono alemão, a 29 de junho: desfiles, danças, vestes da época, gente, muita gente, barracas de comidas em todos os cantos, ônibus fretados, um sem-número de vans e a cidade era toda sorriso. Os visitantes ficaram perto do verde e contemplaram os manacás da terra explodindo em flores. Bebida, cerveja, muita cerveja, cerveja demais. Afinal, de contas…dá para compreender. Festa. Faz parte da festa comer e beber… Não continuo no meu embalo… Não quero ser propagandista de um produto que, não bebido sem moderação, pode ser catastrófico. Mas faz parte da festa, lembrando os colonos alemães, faz parte dos festejos os canecões de cerveja.

Festa, momentos de lazer nas grandes cidades. Aos domingos há uma multidão de pessoas caminhando pelo Aterro do Flamengo e Avenida Atlântica no Rio de Janeiro. Os carros não circulam e a cidade se torna espaço de lazer… crianças correndo, carrinhos de algodão doce, ciclistas, gente tomando sol nas areias da Princesinha do mar. Festa na cidade. O mesmo acontece na famosa Avenida Paulista que se torna salão engalanado para os pedestres. Podemos fazer festa na cidade.

Damos novamente a palavra a Thomas Merton. Ele escreve a respeito das cidades antigas da América que eram espaços de celebração, de alegria, do culto, do jogo, do louvor. Nossas cidades são diferentes. Palavras duras e palavra de esperança:

 “Não somos maias nem zapotecas pré-clássicos. Não construímos nossa própria cidade. Somos despejados neste alienado acampamento de ratos, no qual não somos desejados, no qual somos constantemente lembrados, por todas as coisas à nossa volta, de que somos impotentes. Esta cidade não é construída para a celebração ainda que se intitule a si mesma de “Cidade da Diversão”. Diversão por dinheiro. A diversão encontra-se nos prédios onde você paga para entrar. Podemos dançar na rua, mas isso não alterará o fato de que nossos prédios são degradáveis, o aluguel é alto demais, o lixo não é coletado, os quintais parecem crateras feitas por bombas. Não tem importância. Podemos agora começar a mudar esta rua esta cidade. Começaremos a descobrir nosso poder de transformar nosso mundo. Aquele que celebra não é impotente. Torna-se um criador, porque é um amante” Thomas Merton, op. cit., p. 55-56).

Durante os festejos ligados à Copa da Rússia, quando caminhamos pelo Aterro do Flamengo do Rio ou pelos espaços da Avenida Paulista esquecemos as falcatruas descobertas pela operação Lava-Jato. Alguns estão se aproveitando da festa para tomar indecentes decisões de soltura de responsáveis por tantos crimes. Aproveitam-se da festa. Enquanto vemos a arte de Philippe Coutinho, Neymar, Cristiano Ronaldo, determinadas raposas continuaram agindo nas trevas de seus corações porque não sabem festejar. Sabem falar apenas o bailado egoísta entre seus parceiros tenebrosos. A partir de agora, atenção, vamos prestar atenção nos programas dos candidatos às eleições. Que Deus nos dê a graça de encontrar nomes que, com sua nobreza, possam nos dar motivos de festa.

 “Aquele que celebra não é impotente. Torna-se um criador porque é um amante”.

 

FREI ALMIR GUIMARÃES

 

Fonte: Franciscanos

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