Domingo, 30 Março 2014 17:20

FOI DURO DIZER QUE ELE ESTAVA DEFINITIVAMENTE DOENTE

Março/Abril/2014

FOI DURO DIZER QUE ELE ESTAVA DEFINITIVAMENTE DOENTE

 

 É crônica?  Ou não é?  É um pequeno espaço de vida entre um doente, gravemente doente, e uma pessoa que está encarregada de ama-la até o fim e de dizer-lhe  que  ele tinha seus dias contados...

 

 O HOMEM QUE TINHA SEUS DIAS CONTADOS...

 

Senhor,

pediram que eu o levasse para uma cidade do interior.

Fazia um tempo esplendoroso.

Foi bom  ver as flores, o verde e sentir o vento a nos acariciar o rosto.

Num determinado momento da viagem fez até frio. Precisamos fechar a janela.

Tomamos copo de água e um café com leite numa parada que nos oferecemos.

Uma menininha veio ter com meu amigo.

Ele, com suas mãos trêmulas e seus longos dedos acariciou a pequenina com seus cachinhos dourados.

A viagem não durou mais de que hora e meia.

Notei que meu amigo estava cansado.

Lá, na calma da cidadezinha, depusemos nossas coisas .

Depois de um breve descanso viemos a nos reencontrar.

Sentamo-nos um ao lado do outro e permanecemos em silêncio.

Ele sabia que lhe diria a verdade.

Com toda insistência pediu que eu fosse sincero.

Queria que fosse eu a lhe falar, eu, seu amigo que lhe falasse sobre sua doença.

Tinha que dizer-lhe a verdade, sabendo que ele já desconfiava do teor de minhas palavras.

Claro,  não podia fugir... tinha que falar.

Ele ergueu a cabeça, corajosamente e me fitou

Como obedecê-lo, e ao mesmo tempo, não lhe tirar a energia?

Que palavras usar, palavras exatas omitindo, quem sabe, por menores dispensáveis poupando esse ser, esse corpo, esse amigo já tão fragilizado.

Rezamos juntos.  Depois tomei suas mãos e falei. 

Ou, melhor, foste tu, Senhor que falaste.

Após uns segundos de angústia, ele se voltou para mim como que para me encorajar.  Tentei continuar.  

Ele, porém, me interrompeu abruptamente.

Fez a pergunta que eu esperava: “Quanto tempo?” 

Propositadamente coloquei o prazo mais distante, o prazo mais dilatado,  mais favorável, mais improvável que lhe deixasse com  aquilo que todos sonhamos:   um pouco de amanhã.

Senhor, ele fez com que eu prometesse acompanha-lo até o fim e eu prometi.  Nas últimas semanas ele se deu conta que as cortinas estavam para se fechar.  Ele sabia que eu sabia. 

Esta cumplicidade muda ensolarou suas últimas semanas –  aliás tão duras – até o radiante sorriso final.

 

Ligeiramente adaptado de A.-M. Carré

Prièrespourlesjours de notrevie

CERF,Paris,   1983, p. 50

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